Voltar para a lista
 
  Título
PAISAGENS E LUGARES DISTÓPICOS NO CINEMA DE KLEBER MENDONÇA FILHO
Autor
Maria Helena Braga e Vaz da Costa
Resumo Expandido
O conceito de distopia tem sido explorado pelo cinema contemporâneo em formato pessimista carregado de crítica social, desigualdades gritantes entre ricos e pobres, e a visualização de uma massa populacional apática, ingênua e facilmente manipulada em contrapartida ao poder que é mantido por poucos (NAGIB, 2006). Recife Frio e O Som ao Redor auxiliam à reflexão sobre o imaginário distópico associado aos grandes centros urbanos contemporâneos.

Kleber Mendonça estrutura o eixo narrativo dos dois filmes situando a distopia na palpável incerteza econômica, política e social, em uma geografia fílmica singular e autêntica constituída a partir da paisagem da cidade. Mendonça Filho (2010) relatou que Recife Frio "é um lamento de amor pelo Recife".

Coerente com uma concepção de espaço que obedece a uma ordem geográfica e climática, Recife Frio subverte ironicamente o lugar quando dele exclui o clima tropical representando-o sob temperaturas abaixo de 10ºC. Especula-se aqui sobre transformações na paisagem recifense: desde seus repentistas que cantam a “Recife fria”, ou a investidores estrangeiros interessados nas pousadas das praias paradisíacas que têm de se conformar com as perdas econômicas decorrentes da mudança climática.

As famílias de classe média alta que habitavam seus apartamentos espaçosos, confortáveis e ventilados à beira mar na Av. Boa Viagem, agora estão a mercê do frio inesperado que as obrigam a reorganizar o espaço da habitação. A “migração” do filho dos donos do apartamento para o quarto da empregada, faz uma referência irônica à tradição da arquitetura colonial de projetar os aposentos das empregadas com espaços minúsculos, sem qualquer ventilação ou preocupação com o conforto ambiental do cômodo.

O Som ao Redor narra a história de alguns moradores de classe média de uma rua do bairro de Boa Viagem, e oferece um olhar sobre Recife explorando a problemática da desigualdade da estrutura de classes que continua a influenciar o lugar. Kleber Mendonça (2013) disse que “A cidade e a sua arquitetura estão indo contra as pessoas. [...] que estão totalmente condicionadas àquela geografia, de uma maneira não natural. E não humana.” No filme vê-se a classe média enjaulada em edifícios sitiados, as brincadeiras de criança limitadas pelo espaço do “playground”; a vigília dos guardas que supostamente devem cuidar da segurança das casas da rua.

Diante da nova e inóspita urbanização do Recife, e da propensão à verticalização - explorada a partir do uso de travellings e vistas aéreas do topo dos edifícios tornando-a um emaranhado de prédios -, a rua que serve de cenário para o filme tem dono: Francisco, proprietário de um engenho decadente no interior do estado e de boa parte dos apartamentos do quarteirão. A rua é o enclave privilegiado do patriarcado, onde os brancos ricos continuam a ter empregados negros fingindo que eles são tratados como membros da família, e os pobres continuam como empregados daqueles que possuem dinheiro e bens.

A narrativa em O Som ao Redor centra no medo da violência que se expande visceralmente pela classe média através da trivialidade relacionada às experiências do viver na cidade, à especulação imobiliária e aos grupos formais e informais que assumem o papel de guardiães da segurança nos territórios urbanos. A fisicalidade da segurança é paradoxalmente contraposta à psicológica. Barreiras físicas são uma constante em toda a composição espacial fílmica: portões, cercas, portas, janelas, grades (COSTA, 2015). Tudo que rodeia os personagens parece sugerir que existe um estado de estabilidade, vigilância, e proteção, ironicamente, isso não é suficiente para assegurar a “paz de espírito” da vizinhança.

As cidades do cinema, antes utópicas porque imaginadas no contexto de um padrão ideal, assumem atualmente uma condição distópica. Em ambos os filmes, as narrativas distópicas falam livremente sobre mudanças na realidade (física e/ou psicológica) condicionadas pelas transformações da paisagem urbana.
Bibliografia

CAUQUELIN, A. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 152 p.

COSTA, M.H.B.V. da. Social and cinematic landscape in Neighbouring Sounds. Mercator, 2015, vol.14, n.3, p.27-43.

MENDONÇA FILHO, K. Gazeta do Povo, Paraná, 13/03/2013, entrevista concedida a Paulo Camargo, disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/entrevista-a-cidade-e-a-sua-arquitetura-estao-indo-contra-as-pessoas-ayfxez9m2k3ipl8b4oq0lo1n2

MENDONÇA FILHO, K. Recife Frio Lançado em DVD. CinemaScópio, 14 Dezembro 2010, disponível em: http://cinemascopiocannes.blogspot.com.br/2010/12/recife-frio-lan%C3%A7ado-em-dvd.html

NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro. São Paulo: Cosac Naify, 2006. 216 p.

XAVIER, I. Kleber Mendonça Filho e Ismail Xavier se encontram para discutir "O Som ao Redor". Jornal Opção, 2010. Disponível em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/ultimas-noticias/kleber-mendonca-filho-e-ismail-xavier-se-encontram-para-discutir-o-som-ao-redor