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  Título
Um Expressionismo em Capitu: a apropriação imagética contemporânea
Autor
Yasmin Pires Ferreira
Resumo Expandido
Da televisão ressoa uma voz rouca, que proclama frases conhecidas. Entre um jogo imagético que intercala paisagens atuais e antigas, olhos melancólicos, borrados, parecem fitar a nós, espectadores, transpassando sentimentos tão límpidos que fogem às sombras do seu entorno, enquanto se desenlaça na tela uma história no mínimo reconhecível. Até que, pronunciado pelo protagonista, chega aos nossos ouvidos o nome “Capitu”. Trata-se de uma consagrada obra da literatura brasileira adaptada para a televisão em formato de minissérie, afinal. Porém, com uma abordagem visual e narrativa diferente da que o leitor provavelmente figurou em sua mente enquanto lia Dom Casmurro, de Machado de Assis, está inserida em uma proposta criativa que foge a qualquer realismo ou padrão clássico televisivo.



A composição do objeto audiovisual em questão encontra-se permeada por uma estética que dialoga com a vanguarda expressionista alemã, em vista da utilização de um ostensivo trabalho direcionado à projeção da atmosfera psíquica do protagonista nos seus arredores. Logo, na atuação, maquiagem caricata, distorções, luzes quentes e sombras, Capitu (2008) desloca concepções técnicas e estilísticas oriundas do contexto moderno para a contemporaneidade.



Em sua origem, o expressionismo alemão é um movimento artístico permeado por motivações políticas e culturais. No início do século XX, sob a influência das tensões do pré-guerra, uma camada intelectualizada de alemães se une em prol da negação à era moderna, transmutando seus sentimentos de indignação em arte – a qual, para eles, era detentora de grande potencial transformador. Na busca de práticas artísticas subversivas, a vanguarda expressionista alcançou múltiplas linguagens, como teatro, cinema, literatura e artes plásticas. Após a instauração do movimento, a I Guerra Mundial e suas consequências vieram a exacerbar estilo proposto (GUINSBURG, 2002). As pinceladas se tornaram mais rudes, os enredos mais sombrios, e os sentimentos latentes nas obras, cada vez mais sórdidos. Assim, pelo vigor dos ideais que a moviam e de seu estilo, a arte modernista nos deixa um legado inegável.



Frente a este panorama, identifica-se que em certos estudos de crítica cultural, a apropriação imagética do expressionismo pela obra Capitu responde à vigência de um cenário em que a produção artística aquiesce à lógica capitalista. Em tempos onde o timing de produção não dá margem para o exercício da criatividade, Friedrich Jameson (2002) considera que é próprio ao atual estágio de nosso sistema econômico que estilos “mortos” sejam trazidos de volta através do pastiche, ou seja, do uso reificado de traços estilísticos existentes. Nesta perspectiva, o expressionismo teria sido meramente “pinçado” do seu entorno para se transformar em um discurso reduzido aos ditames da indústria cultural, sem originalidade ou complexidade. Todavia, devemos nos questionar que tipo de expressionismo Capitu nos traz, e com qual finalidade.



Nos termos do padrão de produções televisivas, é possível percebermos que Capitu promove uma experiência diferenciada no espectador. Ângulos incomuns e composições disruptivas aliadas à força do estilo expressionista são as ferramentas que Luiz Fernando Carvalho encontrou para suscitar a imaginação do público, para educar e aguçar a sensibilidade estética daqueles que são sustentados cotidianamente pelos clichês e raccords da grande mídia (PROJETO QUADRANTE, 2008). Portanto, no que concerne ao expressionismo de cada época, vemos que ao mesmo tempo em que seus contextos e objetivos divergem, ambos confluem ao procurar novos sentidos para as práticas artísticas, engajando-as. A apropriação produtiva da imagem em Capitu, unida ao poder dos meios comunicacionais no que diz respeito ao alcance das massas, pode produzir a disseminação de um aprendizado estético construído em cima do diálogo com a arte expressionista. Cria-se, então, a possibilidade de confrontar os padrões audiovisuais já estabelecidos pela televisão.
Bibliografia

ADORNO, T. W. Adorno: textos escolhidos. Nova Cultura. São Paulo, 1996.



CAPITU. Direção: Luiz Fernando Carvalho. Rio de Janeiro. Globo Marcas, 2009. 2 DVDs.



CARVALHO, L. F. Diálogos com o diretor Luiz Fernando Carvalho. In: Capitu. Casa da Palavra. Rio de Janeiro, 2008.



CARVALHO, L. F. Entrevista concedida à autora. Belém, 26 de abril de 2013.



ECO, U. Apocalípticos e Integrados. Perspectiva. S. A. São Paulo, 2004.



GAY, P. A Cultura de Weimar. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1978.



GUINSBURG, J. O Expressionismo. Perspectiva. São Paulo, 2002.



GUINSBURG, J.; BARBOSA; A M. O Pós-Modernismo. Perspectiva. São Paulo, 2008.



HARVEY, D. Condição Pós-Moderna. Loyola. São Paulo, 1992.



JAMESON, F. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Ática. São Paulo, 2002.



PROJETO QUADRANTE, 2008. Disponível em: http://quadrante.globo.com. Acesso em: 06/03/2017.