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  Título
Darwin, o imitador do belo sexo: dos palcos às telas
Autor
Sancler Ebert
Resumo Expandido
Este trabalho investiga a trajetória do artista Darwin, famoso imitador do belo sexo, que entre as décadas de 1910 a 1930 obteve grande sucesso nos cineteatros cariocas. De origem espanhola, o artista se apresentou ao longo dos anos, travestindo-se como mulher, em locais como o Rialto, Republica, Palace-Theatre, Cine-Theatro Brasil, Theatro Cassino, Cinema Atlantico, Cinema Central, Cine Smart e Cine Theatro Modelo.

Interessa-nos nesta comunicação compreender como eram as apresentações de Darwin, quais filmes eram exibidos após o artista, como a travestilidade era compreendida na época e por fim, como o sucesso nos palcos acabou levando Darwin a participar do filme “Augusto Annibal quer casar!” (1923) de Luiz de Barros. Para isso faremos pesquisas nos periódicos “Gazeta de Notícias”, “Correio da Manhã”, “A Scena Muda”, entre outros e acionaremos a bibliografia existente sobre o período.

A partir de uma pesquisa inicial, podemos inferir sobre alguns pontos dos questionamentos acima. No jornal Correio da Manhã encontramos o primeiro registro de Darwin que data de 08 de agosto de 1914. No início de suas apresentações no Brasil, Darwin interpretava canções estrangeiras, travestindo-se como uma cantora francesa, espanhola e italiana. (Gazeta de Notícias, 01/11/1914, p. 2). Depois de anos no país, o artista passa a interpretar sucessos nacionais, como “Maroca”, que obteve êxito em carnavais (Correio da Manhã de 19/04/1922, p. 6). Outro destaque do espetáculo eram as roupas apresentadas por Darwin, vendidas nas publicidades como “Vestuarios riquíssimos e de apurado gosto” (Correio da Manhã, 09/04/1922, p. 16), “Deslumbrantissimas Toilettes dernier cri”, algo como vestuários do último grito em francês (Correio da Manhã, 05/04/1922, p. 12).

O sucesso de Darwin estava na sua perfeita imitação do sexo feminino. Tanto que o jornalista e político Costa Rego escreveu um artigo no Correio da Manhã de 21 de abril de 1922 onde defendia que “o que desperta furor em Darwin não é propriamente ele: é a sua ilusão” (p. 2). No texto, Costa Rego destaca como o uso de sedas, peles e plumas somados ao uso de maquiagens tornava Darwin uma bela mulher. No entanto, o jornalista acreditava que era a observação do artista sobre o corpo feminino que o tornava tão famoso: “porque Darwin não seria perfeito se não houvesse estudado a maneira como a mulher costuma apoiar-se sobre o pé direito, deixando ligeiramente suspenso o pé esquerdo; dos dotes pessoaes, porque essa observação de nada lhe valeria se a natureza não houvesse dado um physico accessivel ao esforço da adaptação” (p. 2).

Sobre a questão da travestilidade no início do século XX, é interessante observar que os espetáculos de Darwin eram vendidos como para toda família e tinham enorme aceitação entre homens e mulheres, porém a travestilidade em público constituía uma violação do Código Penal até 1940, levando a detenção (GREEN, 2000, p. 172). Chama atenção o fato de em várias notas publicadas na imprensa, ser apontado que, para desfazer o encanto que jogava sobre os homens, Darwin falava com voz masculina durante o seu espetáculo, reafirmando sua masculinidade e a travestilidade como arte.

Por fim, vale destacar a participação de Darwin na comédia de Lulu de Barros. Assim como o comediante Augusto Annibal emprestava seu nome a um personagem e ao título do filme, Darwin aparecia interpretando a si mesmo. As publicidades destacavam a participação do “assombroso imitador do belo sexo” (Correio da Manhã, 05/09/1923, p. 14), anunciavam “Darwin noiva de Augusto Annibal!” (Correio da Manhã, 07/09/1923, p. 14) e instigavam “Darwin, num papel femino de entontecer os homens” (Correio da Manhã, 06/09/1923, p. 14). No filme, Darwin é contratado para passar-se por mulher e casar com Augusto Annibal. Com o casamento consumado, Darwin passa agir como homem fazendo o protagonista fugir pendurado em um avião (A Scena Muda, 13/09/1923, p.6-7,31).
Bibliografia

ARAÚJO, Luciana Corrêa de. Augusto Annibal quer casar!: teatro popular e Hollywood no cinema silencioso brasileiro. Alceu, v.16, n.31, julho/dezembro 2015, p.62-73.

ARAÚJO, Vicente de Paula. A bela época do cinema brasileiro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.

A SCENA MUDA. Disponível em http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/

BARROS, Luiz de. Minhas memórias de cineasta. Rio de Janeiro: Artenova, 1978.

CORREIO DA MANHÃ. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/correio-da-

-manh%C3%A3/089842

GAZETA DE NOTÍCIAS. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/gazeta-de-

-noticias/103730

GREEN, James. Além do Carnaval. A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Editora Unesp, 2000.