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  Título
Mundos em dissolução – tragédia em minisséries brasileiras
Autor
mariana maciel nepomuceno
Resumo Expandido
Este trabalho investiga a articulação da temática da tragédia da transposição de textos literários para as minisséries Dois Irmãos (2017) e Capitu (2008) do diretor Luiz Fernando Carvalho, e Amores Roubados (2014), de João Luiz Villamarim. De que maneira essas obras se articulam com a noção grega do trágico a partir do texto que mantém como referência? Que diálogos podem estabelecer entre si e com o próprio contexto em que foram exibidas? Apresento alguns apontamentos que possam demarcar aproximações e distanciamentos entre as propostas estéticas e narrativas dos dois diretores.

O que proponho é traçar um olhar investigativo inicial que possa construir paralelos entre as obras dos dois diretores. É também intenção desta proposta problematizar a pertinência do trágico nessas obras evidenciando, por exemplo, a ligação entre o trágico e o barroco em Luiz Fernando Carvalho, num polo, e, em outro, a ligação de Villamarim com o naturalismo, potencializando o infortúnio, além de colocar em relevo a construção da maternidade como parte essencial da tragicidade nos trabalhos dos dois diretores. Acreditamos que essas obras podem trilhar rotas de desobediência da lógica tradicional da teledramaturgia, em favor de um caminho de recriação da força sugestiva, das entrelinhas, dos espaços amplos de significação que o audiovisual potencializa.

A dissolução de uma ordem estabelecida é o cerne da tragédia desde os gregos. A potência dos mitos gregos abre passagem para que narrativas trágicas que persistem no espaço do simbólico adentrem o campo social seja de maneira dialética (SZONDI, 2004), seja na concepção dramática de estar inserido em um mundo hostil, onde não é desejado estar (STEINER, 2006). Assim é o percurso apresentado em Édipo Rei, segundo a tradição trágica clássica. Essa mesma dicotomia conflituosa entre sujeito e mundo persiste no drama de Jasão, na tragédia Medeia de Eurípedes. Ou na luta do indivíduo com a autoridade dos governantes, como ocorre na Antígona, de Sófocles. A tragédia emerge do páthos, estado que pode ser configurado em dor, em doença, em paixão, em sofrer. Na tragédia, a dor é irreparável, sem solução, jaz naquilo que o sentir tem de desespero sem medida (STEINER, 2006).

A radicalidade da tragédia está no que ela coincide, pois, com fatos cotidianos que acontecem sobre nós ou que nos impelem a agir de maneira forçada pelas circunstâncias (NUSSBAUM, 2009). Algo que pode, repentinamente, alterar todo o curso de nossas vidas, independente do nosso agir racional e de nossas boas intenções. É neste ponto que, nas obras de João Luiz Villamarim, a intenção de efeito de real contribui para a percepção do trágico. Em Amores Roubados, o capítulo de apresentação antecipa o desfecho trágico causado pela ação desmedida disparada pelo protagonista, em consequência principalmente do envolvimento anterior dele com a mãe da mulher por quem se apaixona.

Circunscrevendo a obra de Luiz Fernando Carvalho, podemos falar da articulação entre tragédia e barroco. Assim como na tragédia, persiste no barroco a dialética entre o conhecimento e o não saber como fundamentos da ação. Essa oscilação está na posição do narrador em cada uma das minisséries. Bentinho em Capitu e Nael em Dois Irmãos. Ambos se movimentam em torno de algo que não sabem ou sobre o que não possuem certeza. Carvalho contribui para a crítica à estética da ficção televisiva oferecendo uma demarcação de estilo na direção de arte excessiva, uma espécie de revisão da racionalidade moderna - não há contenção para a emoção, não há a rejeição ao melodrama - um posicionamento diametralmente oposto ao de Villamarim.

Os diretores que compõem o foco desta proposta tomaram histórias já conhecidas pelo público para ser o ponto de partida de novas visualidades na ficção televisiva. A repetição de enredos, aqui, surge também como fonte de criação e de construção de estilo de autor, em afinidade com o que Linda Hutcheon (2013) propõe como sendo parte do prazer do público que experi
Bibliografia

CASTORIADIS, Cornelius. Figuras do pensável as encruzilhadas do labirinto. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004. Vol. VI.

DURAND, Gilbert. A imaginação simbólica. São Paulo: Cultrix, Editora da Universidade de São Paulo, 1988.

HABERMAS, Jürgen. O ocidente dividido. São Paulo: Editora Unesp, 2016.

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Florianópolis: Editora da UFSC, 2013.

NUSSBAUM, Martha C. A fragilidade da bondade - Fortuna e ética na tragédia e na filosofia grega. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

SÓFOCLES. A Trilogia Tebana – Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Ebook.

STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Ed. UFMG, 2008 .



_____________. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: Ilha do Desterro, Florianópolis, nº. 51, jul./dez. 2006, p. 19-53.



STEINER, George.