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  Título
Múltiplos ecrãs: narrativas de deslocamento e visualidade háptica
Autor
Ruy Cézar Campos Figueiredo
Resumo Expandido
Desde os anos 1990 os múltiplos ecrãs e projeções passaram a ter uma presença ostensiva no espaço da arte contemporânea. Essa presença tem propósitos, orientações e formas variadas, e para Verheul (2011), expressa bem processos de estranhamento, deslocamento, trauma e os limites da representação e tradução do eu para o outro em um mundo marcado pela globalização e interculturalidade.



Ainda, para Connoly (2009), não é incomum que nas instalações em múltiplos ecrãs haja uma referência direta a um lugar específico que existe ou um dia existiu, podendo esse lugar ser uma característica geográfica, uma cidade ou uma marca na paisagem, sendo cada vez mais frequentes projetos curatoriais que se voltam para questões de lugar e de deslocamento. O presente artigo tem como interesse, portanto, contextualizar essa produção e se aproximar de uma compreensão de seu aspecto formal com questões de lugar e deslocamento.



Através das experiências com múltiplas projeções a partir dos anos 1990, Connoly (2009) crê que se articula um repensar sobre o que é lugar tanto no campo das artes quanto no campo da geografia social. O lugar emerge daí como um conceito mutável relacionado ao próprio se sentir fora de lugar, que, referenciando-se nos trabalhos de Miwon Kwon e Doreen Massey, ‘é um sintoma cultural da realidade política e social do capitalismo tardio’.



Para Verheul (2011), que pesquisou a experiência de interculturalidade em instalações cinematográficas com múltiplas projeções, a experiência formal dessas instalações é crucial para se compreender o contexto que se coloca desde os anos 1990 para a imagem em movimento no espaço do museu, dado, primeiramente, que há a presença de uma mise-en-scène cinematográfica em muitos trabalhos. A vídeo arte até 1980, conforme STEMMRICHE (2008), ocorria, diferentemente, sobre um tempo real em termos de percepção, representação, comportamento e duração, quando o aparato videográfico como objeto era exposto enquanto parte de performances e instalações, ou como uma análise e crítica da televisão a partir de sua própria tecnologia, como ocorreu em vários trabalhos de Nam June Paik. Uroskie (2014), aponta, então, um ponto de virada nessa abordagem a partir dos anos 1990, afirmando que desde essa década os artistas e as instituições abraçaram de tal maneira a instalação com imagem em movimento que elas se tornaram a regra em vez da exceção na arte contemporânea.



Nesse mesmo viés de Uroskie (2014), Dubois (2009) reconhece essa convergência como um fenômeno de destaque a partir dos anos 1990, constituindo-se como um fato objetivo, fenômeno geracional e possivelmente uma ‘escola’. Esse reconhecimento, ainda conforme UROSKIE (2014), só se tornou possível a partir de um processo que tem início com a crítica de arte no pós-guerra, quando esta, enraizada no minimalismo dos anos 1960 e na fenomenologia de Marleau-Ponty, articula uma preocupação com o “site”, o local, como um meio de lançar atenção, para além do objeto de arte em seu isolamento, ao ambiente no qual qualquer encontro artístico toma lugar. Essa perspectiva situacional, na década de 1990, ganha uma concepção renovada na literatura que se esforça para pensar as instalações com imagens em movimento na arte contemporânea. Isso ocorre com teorizações sobre o lugar, a situação e o site no contexto da globalização, repercutindo na própria concepção de tais conceitos.



Através de referências bibliográficas a trabalhos com essa forma e de instalações de Isaac Julien e Douglas Gordon experienciadas pelo autor, busca-se no artigo destacar como a edição espacial de tais trabalhos articula conexões e disjunções entre as projeções e produz uma forma de espectação marcada pela navegação, onde o espectador deve explorar e entrar em contato físico com as imagens que o envolvem em expressões desorientadoras de tempo e espaço, por vezes relacionadas a desorientação espacial e temporal causada pelo contexto de globalização que se deu intensamente a partir de 1990.
Bibliografia

BRUNO, Giuliana. Surface: matters of aesthetics, materiality and media. University of Chicago Press. 2014.



CONNOLLY, Meave. The Place of Artists Cinema: Space, Site and Screen. University of Chicago Press. 2009.



DUBOIS, Philippe. Um "efeito cinema" na arte contemporânea. in: Dispositivos de registro na arte contemporânea. Org. Luiz Cláudio da Costa. Rio de Janeiro: 2009.



MARKS, Laura U. The Skin of the Film: Intercultural Cinema, Embodiment, and the Senses. Durham and London : Duke University Press, 2000



NAFICY, Hamid. An Accented Cinema: Exilic and Diasporic Filmmaking. Princeton University Press. 2001



STEMMRICH, Gregor. White Cube, Black Box and Grey Areas: Venues and values. Gregor Stemmrich. in: Art and The Moving Image. 2007



VERHEUL, Tessa. Between Screens, Between Identities. Multi-Screen Installations and Interculturality. University of Amsterdam. 2011.



UROSKIE, Andrew. Between the Black Box and the White Cube: Expanded Cinema and Postwar Art. Chicago Press Universi 2015