Voltar para a lista
 
  Título
Tensões entre imagem-movimento e imagem-tempo em Linha de Passe
Autor
Cyntia Gomes Calhado
Resumo Expandido
Apesar do filme Linha de Passe (Walter Salles, 2008) permanecer, em grande medida, no registro da imagem-movimento, podemos notar fissuras na representação, momentos em que o tempo se constitui como escritura e, então, instaura-se a imagem-tempo e a narrativa como acontecimento. Buscamos demonstrar, por meio da análise de uma sequência de festa presente neste longa, que o filme apresenta simultaneamente os dois modos de subjetivação presentes na tipologia deleuziana das imagens cinematográficas: imagem-movimento e imagem-tempo. Além disso, propõe-se que o trecho em que há uma quebra do movimento fluido dos quadros fílmicos, que coincide com o ápice da plasticidade da luz, possa ser lido como aquele que instaura a imagem-tempo na sequência. É um dos momentos em que identifica-se a narrativa como acontecimento no filme, de acordo com a concepção de André Parente (2013).

Esse plano, visto como um ato de presentificação, introduz uma fissura na representação das ações até então colocadas, promovendo um desdobramento nas imagens. A dobra instaurada pelo acontecimento narrativo abre uma multiplicidade de relações possíveis entre os espectadores e essa imagem fílmica. A narrativa como acontecimento intensifica a experiência cinematográfica, pois o tempo da imagem e o do espectador se identificam. Desta forma, o tempo é percebido como vivido e cria-se uma relação entre a luz projetada - o princípio do dispositivo cinematográfico - e o espectador.

Um modo de leitura que propomos para esta sequência é de como o contato com a alteridade, mediado pela experiência cinematográfica, pode produzir novas formas de subjetividade. Isto ocorre devido ao procedimento audiovisual de tensionamento dos registros da imagem-movimento e imagem-tempo que cria zonas fronteiriças entre as plasticidades da imagem e a narrativa. São nestes interstícios que a produção de subjetividade acontece.
Bibliografia

DELEUZE, G. Francis Bacon: Lógica da sensação. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

_________. Plasticidade e Cinema: A Questão do Figural. In: Stéphane Huchet (org.). Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo: Edusp, 2012.

MACHADO, A. Anamorfoses cronotópicas ou a quarta dimensão da imagem. In: PARENTE, A. (org.). Imagem-máquina: A era das tecnologias do virtual. São Paulo: Ed. 34, 1993.

_________. Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas: Papirus, 2011.

MELLO, Christine. Extremidades do vídeo. São Paulo: Senac, 2008a.

_________. Cinemáticas. In: Lucia Santaella; Priscila Arantes. (Org.). Estéticas Tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008b, v. , p. 149-162.

PARENTE, A. As virtualidades da narrativa cinematográfica. In:_______ (org.). Cinema/Deleuze. Campinas: Papirus, 2013, p. 249-270.

ROPARS-WUILLEUMIER, M. C. De la littérature au cinema: Genèse d’une écriture. Paris: Colin.