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  Título
Identidade social e a representação da epilepsia no cinema
Autor
Fernanda Sayuri Gutiyama
Resumo Expandido
Esse estudo é uma análise da representação da epilepsia em filmes ocidentais datados a partir de 2005, que dá continuidade ao levantamento de filmes das pesquisas de Toba Kerson e Sallie Baxandale, em que ambas analisaram a representação das crises convulsivas nos filmes em comparação aos estudos médicos de casos reais a partir da classificação de convulsões e epilepsia realizada pela Internacional League Against Epilepsy (ILAE), em mais de 100 obras cinematográficas respectivamente. Ao longo de nossa análise percebemos que os estudos anteriores relacionados ao cinema não levavam em conta a questão de alteridade, identidade e representatividade social da pessoa com epilepsia, e por isso, para contribuir com a pesquisa nesse campo, buscamos trazer esse novo viés a temática.

Nosso corpus fílmico foi determinado por relevância do tipo de produção, para desenvolver um comparativo de linguagens audiovisuais a partir de 3 obras ficcionais (Réquiem, O Exorcismo de Emily Rose e Eletricidade) e 3 obras documentais (Zach, A seizure by Nathan Jones e Ilegal). Recorremos aos estudos em sociologia, antropologia médica e estudos culturais como aparatos para desenvolver uma nova metodologia de análise. Com base na visão biopolítica de Michel Foucault, desenvolvemos a metodologia para analisar os filmes citados, que consistiram nos seguintes passos: levantamento contextual do tipo de produção; análise do discurso do roteiro e abordagem do tema; análise da representação da crise de epilepsia e análise das relações entre os personagens e instituições representadas ou envolvidas.

Os filmes ficcionais ainda retratam a epilepsia de forma estigmatizada, mesmo na tentativa de romper com esse tipo de olhar social predominante, através de questionamentos sobre os tratamentos medicinais e as crenças religiosas. Os filmes documentais de modo geral ainda exploram uma visão humanitária que retratam as pessoas com epilepsia como diferentes do resto da sociedade, mesmo os realizados com participação de associações que lutam pelo reconhecimento da epilepsia; a perda do controle do corpo é uma imagem intensa ao qual câmera desvia o olhar. Já a produção independente A seizure by Nathan Jones produzida por quem tem epilepsia, retrata a manifestação da crise como uma experiência cotidiana, criando espaço para um novo tipo de olhar e subjetividade através de sua mise-en-scène.

O cinema possibilita olharmos para a nossa realidade social e analisá-la, identificando os papéis das instituições sociais, o corpo como extensão da identidade do sujeito, e a percepção sobre si mesmo. De maneira diacrônica, a representação ocidental da epilepsia mudou das percepções de possessão espiritual para a percepção médica corporal de acordo com nosso contexto cultural; e atualmente, as discussões sobre corporalidade e constituição do ‘eu’ ganham força, assim como as questões sobre as formas de poder que regulam os nossos hábitos, nossa cultura e o nosso modo de ser levantadas por Foucault se repercutem nos filmes, abrindo espaço para a expressão de novas subjetividades; e dentro de nossa temática, questiona-nos sobre o que é ser saudável e como os discursos das instituições sociais padronizam a realidade de quem possui epilepsia.

Através das análises concluímos que o estigma da epilepsia continua representado de forma predominante, e consequentemente continua presente em nossa realidade social, reconhecendo o cinema como releitura de nossa sociedade, assim como defende Pierre Sorlin. Com isso, devemos rever o modo de abordagem das pessoas com epilepsia pelas instituições sociais de modo geral, principalmente familiar, médica e do sistema educacional, e analisar quais são os discursos reproduzidos, e se respeitam a subjetividade e identidade das pessoas com epilepsia.
Bibliografia

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