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  Título
SNUFF À BRASILEIRA: MARKETING DE EXPLORAÇÃO NO CINEMA DA BOCA
Autor
Tiago José Lemos Monteiro
Resumo Expandido
Este trabalho discute os métodos e estratégias de promoção adotados por alguns produtores e cineastas da Boca do Lixo (região do centro da cidade de São Paulo que se consagrou como um expressivo pólo de produção audiovisual popular-massiva e de gênero durante as décadas de 1970 e 1980), a partir de uma perspectiva teórica que busca o estabelecimento de interfaces entre a produção da Boca e aquilo que usualmente é reconhecido como estética da exploração (ou exploitation).

A matriz histórica do exploitation pode ser identificada em um tipo muito particular de cinema produzido nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950 e devidamente mapeado por Schaefer (1999). Imbuído do espírito pioneiro dos circos e feiras populares que fazem parte da matriz do espetáculo cinematográfico, e capitaneado por indivíduos com uma mentalidade comercial agressiva no sentido da maximização dos lucros a qualquer custo, o cinema de exploitation clássico se aproveitava de sua condição marginal em relação ao sistema de estúdios para abordar temas que certamente desafiariam os rígidos códigos de censura vigentes à época, como o uso de drogas, a homossexualidade, doenças venéreas e a delinquência juvenil. O cinema de exploração se valia de estratégias promocionais sensacionalistas com o intuito de atrair o público, não raro prometendo mais do que cumprindo e frequentemente recorrendo a dispositivos extra-fílmicos a fim de potencializar alguns efeitos de choque.

Embora o exploitation não morra com os anos 1950, há que se considerar a mudança de cenário proporcionada pela crise do sistema de estúdios, o fim do Código Hays e uma maior tolerância a temas-tabu, no âmbito dos diversos movimentos contraculturais juvenis. Por fim, mesmo Hollywood, a partir de meados dos anos 1960, passa a produzir filmes e adotar procedimentos de marketing até então restritos ao universo do exploitation, a partir de fórmulas já testadas pelas produtoras independentes – o que leva alguns autores a considerar títulos como Tubarão, Star Wars e Caçadores da arca perdida como “exploitations de luxo”.

Uma das características do cinema da Boca era precisamente a negociação direta que se estabelecia entre produtores e exibidores (que, não raro, também atuavam como co-produtores dos filmes), com vistas à maximização dos lucros de ambas as partes, e como forma de atenuar o impacto da ausência de investimentos oficiais. Este cenário, por um lado, tornava os produtores da Boca relativamente independentes dos mecanismos de financiamento e distribuição da Embrafilme, mas por outro obrigava os filmes a atingirem bons resultados de bilheteria logo no final de semana de estreia. Tal objetivo era parcialmente atingido mediante o emprego de técnicas publicitárias afeitas ao exploitation, manifestas nos títulos apelativos (e, muitas vezes, desconectados do verdadeiro conteúdo do filme), nos pôsteres que enfatizavam seu conteúdo erótico e, não raro, na disseminação sistemática de factóides como forma de mobilizar as audiências.

Neste trabalho, investigo tais questões a partir do filme Snuff, vítimas do prazer (1977), thriller policial produzido e dirigido por Claudio Cunha e escrito por Carlos Reichenbach. A trama é ambientada nos bastidores de um falso filme undergound estadunidense rodado na Boca do Lixo, no qual as atrizes seriam verdadeiramente violentadas e mortas diante das câmeras. Aproveitando-se da controvérsia mundial provocada pela versão do produtor Allan Shackleton para o longa Snuff (1975), de Michael e Roberta Findlay, Cunha explorou a suposta natureza autêntica das imagens no material publicitário do filme, utilizando desde falsas declarações expostas nas bilheterias dos cinemas até entrevistas com espectadores anônimos. Como resultado, mais de 700 mil espectadores foram atraídos pelo Snuff à brasileira de Cunha, que ficou entre os 20 títulos mais rentáveis de seu ano de lançamento.
Bibliografia

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FREY, Mattias. Extreme cinema: the transgressive rhetoric of today’s art film culture. New Jersey: Rutgers University Press, 2016.

HAWKINS, Joan. Cutting edge: art-horror and the horrific avant-garde. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000.

KEREKES, David & SLATER, David. Killing for culture: from Edison to ISIS, a new history of death on film. London: Headpress, 2016.

SCHAEFER, Eric. Bold! Daring! Shocking! True! A History of Exploitation Films, 1919-1959. Durhan & London: Duke University Press, 1999.

______. Pandering to the “goon trade”: framing the sexploitation audience through advertising. In: SCONCE, Jeffrey (org). Sleaze artists: cinema at the margins of taste, style and politics. Durhan and London: Duke University Press, 2007. pp. 19-46.