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  Título
APONTAMENTOS SOBRE O CINEMA NA ESCOLA:O MINUTO LUMIÈRE COMO EXERCÍCIO
Autor
Andreza Oliveira Berti
Resumo Expandido
Os planos fixos filmados pelos irmãos Lumière e seus operadores, demandavam condições precisas, devido ao aparato técnico: do momento que começava a girar a manivela até acabar o rolo da película, quando projetados correspondiam a pouco menos do que um minuto. Cabe lembrar que eram as atividades cotidianas que importavam para eles: cenas de trabalho, familiares e de festas; movimentos nas ruas, praças e rios etc. Igualmente, a possibilidade de emergência do novo é parte constitutiva dos exercícios com o Minuto Lumière, dada a delimitação solicitada para os estudantes: câmera parada, não pode ultrapassar um minuto, não é possível utilizar os recursos tecnológicos disponibilizados pelo suporte (como o zoom in e o zoom out, por exemplo) e, não pode haver intervenção no ambiente durante a filmagem, isto é, não pode incluir elementos para compor o cenário, nem criar uma esquete. Todas essas restrições exigem do aluno um planejamento prévio para saber qual será o melhor posicionamento da câmera, o local, o ângulo e o momento apropriado para agir.

Capturar o visível com o que está dentro do campo, implicando (sempre) um fora do campo, como o não visível, expõe o caráter efêmero das coisas que se passam no mundo. Atravessar essas fronteiras, buscando fazer-se presente no aqui e agora, no exato momento em que se captura um fragmento do real, a partir do enquadramento escolhido a priori; destaca a potência da tomada de atenção solicitada para a realização do Minuto Lumière, na medida em que esse exercício demanda um olhar atento e demorado para algo que vemos cotidianamente e, às vezes, não damos demasiada importância. “Rodar um plano é colocar-se no coração do ato cinematográfico, descobrir que toda potência do cinema está no ato bruto de captar um minuto do mundo” (BERGALA, 2008, p. 210).

Ao prestar atenção nos detalhes, os estudantes são convidados a (re)descobrir e (re)inventar o olhar lançado para as coisas do mundo, frequentemente impregnado por um olhar acostumado. Essa experiência de fazer cinema é autoral, dado que só um estudante é responsável por eleger, dispor e capturar os elementos presentes no mundo e assumir, diante de todos, a sua escolha política e estética, inscrita com a câmera, esse objeto que nos faz estranhar o familiar e que registra um instante do mundo (COMOLLI, 2016).

Acreditamos que esse tipo de experimentação audiovisual poderá apresentar para os estudantes “conceitos de enquadramento e plano, uma noção básica da linguagem e dos primórdios da história de cinema, simultaneamente” (FRESQUET, 2013, p. 68). Nesse movimento, relacionar os primeiros planos da história do cinema com os primeiros planos produzidos pelos alunos, permite uma aproximação com a realidade, com o mundo, na medida em que ressaltam a importância de prestar atenção ao mundo. Ao olhar o mundo com atenção, são capazes de ver coisas antes não vistas ou se demorar em coisas, antes vistas com pressa.

Os exercícios com os Minutos Lumière na escola, como atividade introdutória do fazer cinematográfico, traz à tona a questão da atenção como potência pedagógica, na medida em que estar atento ou abrir os olhos para o mundo, revela uma forma de se relacionar com o presente que impulsiona um movimento (em direção ao mundo); exigindo, deste modo, um deslocamento de si (de quem somos) para o mundo (onde estamos). Ao abrirmos os nossos olhos e observarmos o mundo de maneira atenta, essa atitude de atenção com o mundo pode nos expor ao mundo, no mesmo momento em que nos revela alguma coisa dele.

Oferecer exercícios cinematográficos na escola, sob a perspectiva da arte como forma de resistência, convida-nos a apostar tanto na ação quanto na criação artística em contextos escolares, crendo que “a arte é aquilo que resiste, mesmo que não seja a única coisa que resiste” (DELEUZE, 1987, p. 13). Portanto, resistir, na escola, pode ser insistir para que ela continue sendo escola – espaçotempo do estudar, do aprender, do experimentar, do pensamento crítico.
Bibliografia

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: Pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE -FE/UFRJ, 2008.



COMOLLI, Jean-Louis. La cámara. In: BALLÓ, Jordi y BERGALA, Alain. Motivos visuales del cine. Barcelona: Galaxia Gutenberg, S.L., pp: 116-121, 2016.



CRARY, Jonathan. Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2013.



DELEUZE, Gilles. O ato de criação. Palestra de 1987. Edição brasileira: Folha de São Paulo, 27/06/1999. Tradução: José Marcos Macedo. Disponível em . Acesso em 02 de abril de 2015.



FRESQUET, Adriana. Cinema e Educação: reflexões e experiências com professores de educação básica, dentro e “fora” da escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.