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  Título
Holodeck: Uma parede de vidro da verdade e da ilusão?
Autor
Ricardo Tsutomu Matsuzawa
Resumo Expandido
O universo da série: Jornada nas Estrelas –A nova geração (1987-1994) apresenta um futuro utópico com uma concepção republicana de distribuição de poderes, apoiada em traços de uma biopolítica em um não capitalismo. Uma sociedade com recalques disciplinares, representada pela Federação dos Planetas Unidos e um humanismo preocupado com a individualidade, apontando para a uma certa concepção de Foucault para o “cuidado de si”. A série vive um campo entre as tecnologias subjetivas e as técnicas políticas.

A visão utópica da série em seu futuro criado pela ficção carrega uma postura divergente em relação a possibilidade de total transparência futura apontados pelos arautos da pós-modernidade. Em seu bom lugar/ não lugar, Jornada nas estrelas, mantém a ambiguidade com a partilha não polêmica do “universo do sensível” mas sem o rompimento das categorias da evidência em que mantém a normalidade da dominação representada pela Federação dos Planetas Unidos, com sua hierarquia naval/militar em sua idealização construída em Jornada nas estrelas.

Entre inúmeros aspectos desenvolvidos no universo Star trek, destaco o aparelho Holodeck para discussão nesta comunicação. Apresentado no primeiro episódio da “Nova geração”, segundo Murray ele consiste em um: “(...) cubo negro e vazio coberto por uma grade de linhas brancas sobre o qual um computador pode projetar simulações (...) O resultado é um mundo ilusório que pode ser parado, iniciado e desligado à vontade, mas que se parece e se comporta como o mundo” (MURRAY, 2001, pg 30).

Partindo da hipótese central que uma máquina como o Holodeck, no seu horizonte extremo da tecnologia pode apontar para uma transparência absoluta, arauto de um “crime perfeito” e para uma ilusão radical do mundo, definitiva, vital, a parede de vidro da verdade e da ilusão descrito por Baudrillard a partir de Nietzsche em “O assassinato do Real” (2001). Na relação destes polos divergentes, caminham no fio da navalha entre a linguagem como meio de troca simbólica ou o seu desbotamento e fragmentação em um futuro distópico da experiência. Entre o Erlebnis contemporâneo, do animal laborens e a possibilidade da construção de uma experiência coletiva com o passado, o Erfahrung.

O Holodeck pode ser considerado o que Flusser denomina caixa preta. Onde o usuário (funcionário/jogador) a princípio domina o aparelho, definindo parâmetros para o uso, mas ele não precisa entender como a simulação é processada e existem inúmeras possibilidades onde a imprevisibilidade reina em seu uso. Dominando e sendo dominado.

Em um mundo sem limites do contexto da pós modernidade, os personagens de Jornada nas estrelas: Nova geração como usuários do Holodeck, ainda buscam explorar, experimentar, crescer, com o binarismo do pensamento moderno e sua representação simbólica. Carregam o ontem, o hoje e o amanhã. Ainda com um humanismo da modernidade (distante do anti-humanismo e o inimaginável), a psicanálise de Sigmund Freud, em um progresso da humanidade, centrada no “eu”. Necessitam de zonas a ser conquistadas, como no texto em over de sua abertura: “Explorar novos mundos, novas civilizações...”

Entre o lúdico e a sociedade do cansaço, o holodeck aparece como representante da transparência totalizante, mas que se esconde em “um jogo”, de um possível futuro, uma ilusão radical para um mundo mais ininteligível, ainda mais enigmático, retomando Baudrillard.

Podemos pensar ele como uma máquina para fuga do mundo “trabalho”, um espaço para o tempo lazer, para o “cuidado de si”, conceitos caros ao pensamento moderno e distantes se pensar nele como um dispositivo ou aparelho em uma pós história.
Bibliografia

BAUDRILLAD, Jean. A ilusão vital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. V.1. São Paulo: Brasiliense, 1994.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Annablume, 2011.

_______. Jogos. Suplemento Literário, OESP. São Paulo (556):1, 1967. Disponível em: http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/jogos.pdf.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

HAN, BYUNG-CHUL. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 2010.

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