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  Título
Memória e crítica: Coração de cachorro, de Laurie Anderson
Autor
Marcos Fabris
Resumo Expandido
A vida e a morte de um cão de estimação iniciam o processo de reflexão aprofundada sobre os diversos tipos de existência passíveis de serem vivenciadas na sociedade norte-americana contemporânea. Com temática aparentemente banal, senão francamente absurda, o filme Coração de cachorro (2016), com roteiro, música e direção de Laurie Anderson, conta a história da relação que a artista desenvolve com Lolabelle, sua cadela rat terrier. Durante o período em que passam juntas, a dona e seu animal de estimação se aproximam de modo insuspeitado. A cadela, com inteligência incomum e carisma incontestável, acompanha Anderson em passeios e em compromissos profissionais, nunca com status de passivo cão de companhia ou leal cão de guarda (é comparada, por oposição, a um poodle e a um pastor alemão), mas como real companheira, cheia de personalidade, percepções e desejos, capaz de se divertir, aprender e ensinar. A dona estimula o desenvolvimento dos talentos que acredita reconhecer na parceira; como Anderson, Lolabelle se torna multiartista: esculpe, pinta, toca e compõe. No auge do inesperado sucesso, o animal se apresenta em concertos musicais para outros cães e “grava” um disco de natal – “nada mal”, na opinião experiente da própria dona. Instaura-se uma atmosfera onírica incongruente, disparatada, fantástica.

Desde o início da película, Anderson deixa claro que o “documentário” ao qual assistiremos não será apenas sobre a morte da amiga canina (ou de seu companheiro de vida, o cantor e compositor Lou Reed, a quem o filme é dedicado), mas a reunião, em formato de colagem de memórias individuais e de percepções verificadas no cotidiano da artista, de aspectos recentes na história norte-americana após os ataques no 11 de setembro: o policiamento ostensivo nos centros urbanos, a militarização como parte da vida das grandes cidades, o monitoramento por meio da tecnologia de ponta dos mínimos movimentos dos indivíduos, o armazenamento sem precedente de informações em redes globais de computadores, enfim, a contínua construção da sociedade administrada como negócio para fins de controle, inclusive e sobretudo do próprio pensamento e das capacidades de concepção e desenvolvimento de modos, linguagens e ações que permitam concepções de vivências pessoais e coletivas alternativas àquelas verificadas nos Estados Unidos contemporâneos – este o verdadeiro e absurdo pesadelo.

Mesclando desenho, animação, poesia, música, religião, filosofia, política, arte e cinema, Laurie Anderson retoma e expande os experimentos estéticos que realizou influenciada pelo movimento artístico norte-americano conhecido por Fluxus, uma comunidade informal de músicos, artistas plásticos e poetas radicalmente contrários ao status quo da arte no início dos anos 60. A postura anti-culto do movimento perante o ambiente artístico foi altamente contagiante, acolhendo múltiplos artistas espalhados pelo mundo. Algumas fontes principais de Fluxus, reconhecidas no filme de Anderson, encontram-se em Dada, no Surrealismo, no Construtivismo russo da LEF (“Frente de Esquerda das Artes”) e na Arte performática, sobretudo na figura do francês Yves Klein; na música, deve-se recordar uma importante matriz, o compositor norte-americano John Cage (1912 – 1992), com quem Anderson teve estreito contato. A filosofia oriental (igualmente presente no filme de Anderson), é também um farol para Fluxos. Com a multiartista Lolabelle, Anderson mobilizará um conjunto de referências artísticas com o propósito de articular questões que parecem estar cada vez mais na ordem do dia: num ambiente impregnado de morte e profunda retração, como preservar a memória histórica e, ao mesmo tempo, expandir as reflexões estéticas? Como alargar os horizontes sociais no bojo de crises agudizadas que produzem o detrito que impede a reflexão crítica? E, neste sentido, como aglutinar diversas linguagens artísticas de modo a atualizá-las, numa vivificada e socialmente útil Gesamtkunstwerk?
Bibliografia

CHION, M. The Voice in Cinema. Nova York: Columbia University Press, 1999.

CORRIGAN, T. The Essay Film. Londres e Nova York: OUP, 2011.

DOANE, M. A. The Emergency of Cinematic Time – Modernity, Contingency, The Archive. Cambridge, Mass. e Londres: Harvard University Press, 2002.

FOSTER, H. O retorno do real – a vanguarda no final do século XX. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

LARSEN, P. Film Music. Londres: Reaction Books, 2005.