Voltar para a lista
 
  Título
Intermidialidade à serviço da transexualidade e travestilidade
Autor
Cristina Teixeira Vieira de Melo
Resumo Expandido
O jornalista, fotógrafo e artista plástico Chico Ludemir retratou um grupo de 11 mulheres trans e travestis. Para chegar a uma representação mais próxima do “em si” dessas personagens, inventou um dispositivo que opera em cascata na teia das representações. Ao longo de três anos, provocou encontros, ouviu histórias de vida e fotografou. Depois, num ato de escrita criativa, registrou essas narrativas na forma de contos. Por fim, no intuito de confrontar as expectativas daquelas que expuseram suas memórias às representações textuais e imagéticas construídas por ele próprio, propôs um jogo a partir do qual as mulheres deveriam ouvir suas histórias sendo narradas do ponto de vista de um outro, bem como precisariam recontá-las para a câmera como se fossem histórias alheias; assim, no lugar de falarem “eu”, deveriam referir a si mesmas em terceira pessoa. Na mesma ocasião do registro audiovisual, elas foram entrevistadas sobre o processo de construção das narrativas biográficas e ainda encenaram suas histórias para as lentes de Chico.

Todas estas estratégias deixam a mostra um certo caráter autoritário de quem filma. A mão pesada do diretor, no entanto, parece ter um propósito: desnaturalizar todas as situações, escancarando os artifícios da representação. A estratégia de ouvir sua história de vida a partir da narrativa de um terceiro, por exemplo, criou uma espécie de “memória própria-alheia”, fazendo com que a imagem do passado se articulasse ao presente de maneira a ultrapassar o terreno do já sabido. Assim, através da (re)criação de suas trajetórias pessoais e das performances que foram demandadas a realizar, algo novo surgiu; o que, por sua vez, pôde provocar um deslocamento dos sujeitos implicados na ação, sejam aqueles que foram filmados ou quem filmava. A câmera captou este momento único em que os corpos em cena demostraram as surpresas de reconhecerem-se em narrativas “estranhamente familiares”. Esse artifício permitiu a Chico mostrar o que não foi mostrado antes e, ressalte-se, jamais o será, pois, a enunciação é aquele instante único, irrepetível, que não retorna jamais.

A montagem merece um comentário a parte. Ao colocar em um mesmo quadro duas imagens de uma única personagem, Chico expôs, a partir da materialidade da própria linguagem fílmica, um aspecto importante da subjetividade das mulheres trans e travestis: a ambiguidade, a ambivalência, a opacidade, por assim dizer, de seus corpos. Corpo no qual dois se fundem em um, seja por um mecanismo de reconciliação ou de canibalismo. A visualidade de tais imagens é capaz de suscitar, por si mesma, este tema, pois, tanto remete à ideia de divisão, disjunção, fissão, quanto à ideia de união, colagem, adesão. Percebe-se que o dispositivo de representação criado pelo artista traz à tona a questão do duplo, da imagem espelhada, em que, ao mesmo tempo, um “si mesmo” e “um outro de si” se fazem presentes.

As reflexões de Foucault (2003) sobre o espelho como uma utopia e uma heterotopia, ao lado dos estudos de Butler sobre gênero e performatividade (1993,1997, 1999, 2015), bem como a noção de intermidialidade (RAJEWSKY, 2012; MULLER, 2012), nos servem para pensar o curto-circuito entre escrita e imagem criado por Chico Ludermir para representar suas personagens. Tal esforço de representação resultou na exposição “Mulheres: o nascer é comprido” (Fundaj, 2015) e no livro “A história incompleta de Brenda e de outras mulheres” (2016). Esses são nossos objetos privilegiados de investigação, mas nossa questão central é discutir de que forma as diferentes materialidades mobilizadas pelo artista operam na construção das subjetividades retratadas. Como afirma o próprio Chico, “fotografias, textos e vídeos – sozinhos ou agrupados – são tentativas insuficientes, mas necessárias, de criar equivalentes das vidas dessas pessoas no campo do sensível, irredutível a outro qualquer. São testemunhos de que é preciso insistir na tarefa difícil de representá-las sem escamotear sua complexidade”.
Bibliografia

BUTLER, Judith. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of "Sex". London and New York: Routledge, 1993.

______________. Excitable Speech: A Politics of the Performative. London and New York: Routledge, 1997.

______________. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York and London: Routledge, 1999.

______________. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. 1ª.ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

DINIZ, Thaís e VIEIRA, André. (orgs). Intermidialidades e estudos interartes. Belo Horizonte: UFMG, 2012.

FOUCAULT, Michel. "Outros espaços", in: Ditos e escritos III - Estética: Literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 415.

LUDERMIR, Chico. A história incompleta de Brenda e de outras mulheres. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2016.