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  Título
A ética do ator experimental no cinema
Autor
Sandro de Oliveira
Resumo Expandido
Na história das pesquisas sobre o ator no cinema, os procedimentos experimentais encontrados no sistema do jogo atoral foram acontecimentos isolados, fragmentados, rarefeitos, esparsos no tempo, encontrando campo de efetivação em cineastas, atores e atrizes, produções e “escolas cinematográficas” espraiados pela história e pela geografia do cinema. Portanto, campo ainda árido de investigação.

O ator experimental está nos filmes tidos como os “outros” cinemas: vanguarda, experimental, de poesia, de denúncia, independentes, cinemas alternativos, radicais e de resistência; está nos gestos não miméticos e, portanto, dificilmente compreendidos e nas exposições não cotidianas. O ator experimental tem uma urgência incontida de fugir de um arcabouço de posturas e gestos que, julga-se, seja o bastião teórico e prático do ator naturalista e precisa ter, como princípio de trabalho, um espaço menos afeito aos códigos dominantes e limitadores dos cinemas de vertente mais populares.

O que faz, então, o ator experimental, em vista deste centro limitador e narcotizante dos procedimentos afeitos à uma identificação sensória rápida e imediata, de uma relação de fruição límpida com o espectador? Primordialmente, ele questiona este centro ao se aproximar do limiar, da fronteira, da divisa, do limite, da periferia. Ou, muitas vezes, o ultrapassa, entrando no campo minado do desconhecido, do não vislumbrado, do escuro e perigoso terreno dos procedimentos ainda não divisados ou praticados.

Sua ética é a de sacudir a relação entre espectador e cinema de espetáculo composta, muitas vezes, de empatia e passividade, ao rechaçar um envolvimento pessoal e afetivo com o espectador, instalando o choque, o estranhamento, o desnorteamento, a náusea, a repulsa e a vertigem.

A noção de ética do ator experimental que aqui se esboça possui uma relação com a noção de ética que vem da filosofia das ciências normativas de Charles S. Peirce, que afirma que ética, “(...) ou a ciência do certo e errado, deve apelar para a estética por ajuda na determinação do que é o summum bonum. É a teoria da conduta autocontrolada ou deliberada” (CP 1191). Assim, a ética do ator experimental se mede dentro das suas ações de escolha: escolha do que efetivamente o ator experimental faz que o torna experimental.

Portanto, a estética deste ator experimental, seu summum bonum, já está dada de antemão na sua própria carnadura: experimentar, improvisar, transbordar os limites estabelecidos por regras restritivas de módulos cinematográficos mais afeitos ao mercado consumidor, ultrapassar fronteiras circunscritas por códigos deveras opressores, códigos estes que cerceiam os campos de liberdade expressiva e de repertório de gestos, posturas e ações do ator. Portanto, é esta atitude que o ator experimental instaura: uma visão - que se revela inovadora - de todo um arcabouço de representação que historicamente se amalgamou ao trabalho do ator no cinema e que, na nova ordem ética do ator experimental, envelheceu, perdeu seu frescor pela repetição ad nauseum, pela falta do oxigênio da criação.

Esta relação entre a atuação experimental no cinema e sua ética é fundamental para compreendermos o porquê que tantos atores, em tantos filmes separados pelo tempo e pela geografia, empreenderam aparições na tela que levavam em conta questões eticamente tão próximas, gerando assim, a hipótese deste trabalho: existe uma ética premente no ator experimental que tentar-se-á divisar com mais precisão neste trabalho.
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