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  Título
VESTÍGIOS DA MEMÓRIA EM NOSTALGIA DA LUZ, DE PATRICIO GUZMÁN
Autor
Ana Costa Ribeiro
Resumo Expandido
Na arte contemporânea em geral e, particularmente, na criação audiovisual contemporânea, há uma aproximação das paisagens através da organização de vestígios, sejam eles encontrados naturalmente nas paisagens, sejam eles produzidos especialmente para elas. Reconhecer que as paisagens tenham sido percorridas por outros corpos que ali deixaram vestígios ou produzir artificialmente vestígios para se deixar nas paisagens é algo que permite a criação de novos enquadramentos e composições.



As paisagens cinematográficas permitem construções de diversas formas de ritmo, uma vez que lidam tanto com o ritmo da imagem quanto com o ritmo da paisagem, isto é, tanto com as relações entre a imagem e a paisagem, quanto com as relações entre a paisagem e os corpos que se relacionam com ela. Dentre as inúmeras formas de ritmo que se pode estabelecer com as paisagens, destacamos a relação com a memória. No livro Paisagem e Memória, o escritor Simon Schama indica uma conexão intrínseca entre esses conceitos. Para Schama, tal relação é de tal forma imprescindível que, apesar de estarmos habituados a situá-las em campos distintos, paisagem e memória são inseparáveis: “Antes de poder ser um repouso para os sentidos, a paisagem é obra da mente. Compõe-se tanto de camadas de lembranças quanto de estratos de rochas” (1995, 17).



A fim de aprofundar a pesquisa sobre a relação entre paisagem e memória, seria interessante fazer uma reflexão acerca da noção de vestígio. Segundo o filósofo Emmanuel Lévinas, “o vestígio é a inserção do espaço no tempo” (2012, p. 65). Nesse sentido, o vestígio é a presença da ausência e a ausência, um estado que incorpora uma presença.



O corpo que passa deixa um rastro na paisagem. São as marcas dessa passagem que inscrevem memória nos espaços. Na filosofia de Lévinas, “O vestígio não é um sinal como qualquer outro. (…) Ser, na modalidade de deixar um vestígio, é passar, partir, absolver-se” (2012, p. 63-65).



Nesse sentido, a relação entre paisagem e memória se faz através de negociações entre lembrança e esquecimento. O vestígio encontrado em determinada paisagem permite que algo seja lembrado – a passagem de um corpo, de uma comunidade, de um fenômeno físico, etc. – e, ao mesmo tempo, que algo seja esquecido, uma vez que o vestígio é a prova da existência de um passado no presente, isto é, de algo que já não está. Desse modo, a coexistência da lembrança e do esquecimento é fundamental para se pensar na relação entre memória e paisagem. O vestígio é um índice de que algo se passou em determinado espaço. Assim, estabelece uma ponte entre espaço e tempo.



Segundo o pensador Andreas Huyssen, a memória não se dá somente no tempo: “A memória, é claro, não diz respeito apenas ao tempo, mas é sempre espacializada em contextos nacionais, urbanos e daí por diante. Então, tempo e espaço devem ser pensados juntos e eu não pensaria em separá-los, mas sim em vê-los em sua relação dialética” (cit. in CONDE, 2012). Se lembrar significa ler vestígios, a memória de uma paisagem está diretamente relacionada com o que se deixou ou se encontrou nela.



O presente trabalho pretende estabelecer relações entre memória e paisagem no filme Nostalgia da Luz (2002) a partir da noção de vestígio. No filme, o realizador Patricio Guzmán investiga os mistérios de uma paisagem – o deserto do Atacama - para se questionar acerca da memória de um país – o Chile. Através da observação direta dos vestígios encontrados no céu e na terra do deserto chileno, Guzmán chega à sua principal temática: a memória dos presos políticos desaparecidos na ditadura de Pinochet.
Bibliografia

CONDE, Miguel. “Andreas Huyssen discute relações entre políticas da memória e direito”.

Globo Universidade, 3 de agosto. Acesso em 22 de março de 2017. Disponível em:

http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2012/08/andreas-huyssen-discute-relacoes-entre-politicas-da-memoria-e-direitos.html

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2014.

LÉVINAS, Emmanuel. Humanismo do outro homem. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.

SCHAMA, Simon. Paisagem e Memória. São Paulo: Editora Schwarcz, 1995.

HUYSSEN, Andreas. Culturas do Passado Presente. Rio de Janeiro: Contraponto Editora,

2014.

__________________. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.