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  Título
Uma reflexão sobre o reuso das imagens de arquivo no documentário
Autor
Vanessa Maria Rodrigues
Resumo Expandido
Guardar imagens de família para a posteridade. Esse desejo perseguiu a humanidade por séculos, encontrando aporte na escultura, pintura, fotografia e depois no cinema. O fato é que nas últimas décadas, com o barateamento e consequente maior popularização dos equipamentos, praticamente todas as pessoas possuem alguma dessas formas de registro doméstico. E concomitante ao maior acesso, o fluxo de desenvolvimento de novas tecnologias é contínuo e, por isso, muitos arquivos antigos por vezes são abandonados em fundos de gaveta devido à obsolescência e à degradação natural dos suportes. Esse texto surge do entendimento de que esses acervos são carregados de memória, de traços históricos e pessoais que ajudam a contar a rica trajetória de mudanças que envolvem os indivíduos e a sociedade, e assim merecem um olhar atento com vistas à sua reutilização e decorrente preservação. Nosso objetivo é ainda mostrar como os vídeos domésticos, antes restritos ao ambiente familiar, têm hoje um valor que abarca tanto o âmbito privado quanto o coletivo, e como eles podem ser incorporados para a experimentação de novas formas narrativas e estéticas para a prática do documentário.

Para o estudo dessa temática, elegemos algumas produções recentes que apostaram no reuso do material de arquivo de família, principalmente de acervos analógicos. Esse formato foi comum até a década de 1990, quando começaram a ser substituídos e aposentados em nome da tecnologia digital. A escolha pelo analógico se deu por estar há mais tempo “fora de circuito”, e em virtude disso também mais propensos ao esquecimento e aos danos.

Costuramos as discussões inseridas neste artigo em três partes. Na primeira delas, que é uma base para as duas que vêm a seguir, entramos na questão do dinamismo que os arquivos têm em termos de presença nas coisas, nos sinais de permanência que carregam em si e que culminam em maior sensação de veracidade e interligação entre os acontecimentos do tempo presente e passado. Argumentamos ainda que no caso dos acervos antigos de filmes de família, a espontaneidade das cenas, despreocupação com a qualidade das imagens e o registro de situações cotidianas da vida de pessoas comuns, são outros elementos que respaldam e incitam a aceitação e reutilização dos arquivos para a construção de documentários e outras produções no campo do audiovisual.

Na segunda parte do texto, focamos na crescente busca por fragmentos pré-existentes para o resgate da memória e compreensão do momento atual. Mostramos como que nessa procura, cada vez mais os vídeos de família se impõem como meio para tecer relatos pessoais, subjetivos, de histórias protagonizadas por um “eu” que quer se encontrar, descobrir justificativas e alento para traumas ainda em aberto. Esse tipo de narrativa, apesar do caráter um tanto quanto particular, atrai por tratar de assuntos comuns, universais em relação à vivência no mundo. Exemplificamos a ideia com os longas Diário de uma busca (2010) e Elena (2012).

Já na última parte, abordamos o fato de que os arquivos de filmes de família podem também ser reutilizados como uma espécie de tradução da realidade histórica de um período, por conter registros de um passado e de certos processos que o compõe, como por exemplo, a tecnologia, moda e comportamentos usuais àquela época. Ilustramos essa percepção por meio de uma pequena análise do curta Cemitério da memória (2003). E expandimos um pouco mais a discussão elucidando que as possibilidades de reuso desses acervos domésticos são múltiplas, podendo ter lugar até mesmo em trabalhos de caráter mais ficcional, como é o caso de The future is behind you (2004).
Bibliografia

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