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  Título
Figurinos e textura espacial: falamos do cinema de Paulo Rocha.
Autor
Caterina Cucinotta
Resumo Expandido
A partir do Cinema Novo em Portugal, assistimos a uma abertura para uma linguagem inovadora que põe a narrativa linear em segundo lugar para dar espaço a narrações emocionais e intimamente pessoais que refletem o estado de animo coletivo da comunidade artística como também uma liberdade de expressão fora do comum. A moda, como o cinema, vive do poder da forma em movimento (Simmel), transcende os formulários e vai ao encontro de uma história cultural feita de hábitos, do latim habitus que em língua italiana torna-se “abito”, vestido,(Bourdieu, 1994) e processos sociais relevantes.

Esta ideia de conectar o cinema com outros aspetos, interessa-me em particular na relação entre o filme e a arte, entre as praticas visuais e a imaginação estética e traduz-se na urgência de instaurar uma relação entre os estudos fílmicos e outros produtos da modernidade, como por exemplo a Moda. Apresento aqui uma releitura do filme "Os verdes anos" de Paulo Rocha (1963) tendo em consideração as novas teorias do corpo revestido que têm acompanhado os meus estudos doutorais. Esta visão põe o figurino como elemento dramático central na construção das texturas de um filme. Por isso, através de um estudo critico, é importante chegar a uma visão mais ampla da sua potencialidade enquanto construção tout-court da obra cinematográfica ao fim de entender o guarda-roupa de um filme como a criação de texturas sócio-históricas e conceder ao figurinista algumas responsabilidades respeito ao corpo do filme, a sua estética e a sua percepção áptica no ecrã. No caso do filme de Paulo Rocha, tentarei desenvolver um estudo da presença da moda no cinema não como uma banal observação do uso que dela é feito no filme, mas uma passagem no ecrã como uma tendência efémera, da mesma forma como os frames de uma película: passagens que criam um espaço privado e social, modelam o corpo. Eis a textura espacial feita pelos figurinos, pensados não como elementos separados do filme mas reformulados como presença essencial à linguagem do filme. Através da analise de algumas sequências, vamos ver como o cinema enquadra e mapeia a aparência do corpo, redefinindo sensibilidade e fronteiras e vamos aprender a repensar o cinema de autor como uma obra de arte total onde não só a imagem, o enquadramento, a paisagem são importantes como também os corpos e os revestimentos que os habitam.
Bibliografia

Bibliografia essencial

Bruno G., 2002, Atlas of emotion: journey in Art, Architecture and Film, Verso

Bruno G., 2014, Surface, Matters of Aesthetics, Materiality and Media, University of Chicago Press

Calefato P., 1999, Moda, corpo, mito, storia, mitologia del corpo vestito, Ed. Castelvecchi, Roma