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  Título
Beatriz Costa, atriz e comediante portuguesa: a franjinha rebelde
Autor
Afrânio Mendes Catani
Resumo Expandido
Beatriz da Conceição (1907-1996) ou Beatriz Costa, como ficou conhecida, atriz portuguesa de teatro e cinema, tornou-se a melhor e mais popular comediante de seu país. Filha de um moleiro, teve infância difícil, sendo criada pela mãe e pelo padrasto militar, que servia em Tomar. Aos 12 anos mudou-se para Lisboa e, aos 13, aprendeu a ler sozinha. Trabalhou como ajuntadeira e bordadeira, debutando aos 15 “como corista na revista Chá e Torradas (1923), no Éden Teatro de Lisboa” (Costa, J. B., 2011, p. 930). Nesse mesmo ano fez outra revista, Rés Vés, no Teatro Maria Vitória. Em 1924 incorporou-se à Companhia do Teatro Avenida, participando de Fado Corrido e Tiro ao Alvo, apresentadas também no Rio de Janeiro, com grande êxito.

Beatriz inicia sua carreira interpretando revistas, operetas e zarzuelas. A partir de 1926 ingressa na Companhia de Teatro Trindade, de José Loureiro. Estão em seu currículo Agora Vai e Manda Quem Pode, além do sucesso obtido com Sete e Meio (1927), dirigida por Leitão de Barros, com cenários de Stuart e Jorge Barradas. Segundo João Bénard da Costa, “nesta obra interpreta um menino esfarrapado, com chapéu grande e óculos com aros de tartaruga, e canta Cega-rega. Pela primeira vez aparece com franjinha e ainda não tem 20 anos; esse penteado se transforma em uma moda nacional e um claro signo de sua imagem” (p. 930).

Sua estreia no cinema foi no filme mudo O Diabo em Lisboa (1927), de Rino Lupo. Pelo que se sabe através do material de imprensa ela, de franjinha, vive em um cabaré uma moça de “mau comportamento”. Meses depois, com o mesmo diretor, fez Fátima Milagrosa (1928), tendo por par, dançando um tango, Manoel de Oliveira, que pela primeira vez recebe crédito em um filme. Na temporada 1928-29 trabalha na Companhia Eva Schetino, experimentando crescente popularidade com Coração Português, Mãe Eva, Carapinhada, culminando com O Pó de Maio, na qual faz sucesso com o número “D. Chica e Sr. Pires” e realiza sua segunda temporada no Brasil, participando de espetáculos com Aracy Cortes, Mesquitinha e Jaime Costa, dentre outros. Em 1930 filma Lisboa, Crônica Anedótica (Leitão de Barros). Para J.L. Ramos (2011) trata-se de um documentário sobre a vida da cidade, “pontuado por momentos ficcionais a sublinhar facetas pícaras ou dramáticas”, tendo como colegas de cena Chaby Pinheiro, Alves da Cunha, Estêvão Amarante, Nascimento Fernandes e Vasco Santana.

É convidada pela Paramount para a versão portuguesa de Her Wedding Night (Frank Tuttle, 1930), recriando o papel original de Clara Bow, numa época em que se realizavam versões para distintos países. Rodada em Paris e dirigida por Alberto Cavalcanti, é seu grande papel no cinema, contando no elenco com Estêvão Amarante e Leopoldo Froés, que morre pouco depois. O filme obteve excelente bilheteria em Portugal e no Brasil. Mas é na comédia A Canção de Lisboa (Cotinelli Telmo, 1933), contracenando com Vasco Santana, que conquista de vez o público luso. Anos 30: foi considerada a rainha do teatro de revista, emendando sucessos, junto com Vasco Santana, António Silva e Ribeirinho.

Em 1936 protagoniza outra lenda da revista, Arre Bruno, que ficou mais de 1 ano em cartaz, e seu 6º. Filme, O Trevo de 4 Folhas (Chianca de Garcia), comédia sofisticada, com Nascimento Fernandes e Procópio Ferreira. 1937: outra tournée ao Brasil e, em 1939, se despede do cinema com Aldeia da Roupa Branca (Chianca de Garcia), no papel da lavadeira Gracinda.

De 1939 a 1949 vive no Brasil, onde também era bastante popular, e se apresenta no Cassino da Urca e nos melhores teatros, fazendo revistas e shows, contracenando com Oscarito, Grande Otelo, Margot Louro, Linda Batista, Pedro Vargas, Virginia Lane, Silvino Neto etc. Fica casada por dois anos, retorna a Portugal em 1949, viaja por vários países e, até 1960 (quando abandona as atividades artísticas), em ritmo mais lento, encena 1 revista por ano e publica 5 livros de memórias. Viveu, de 1967 a 1996 no Hotel Tivoli, em Lisboa.
Bibliografia

COSTA, B. Sem Papas na Língua: Reminiscências. Lisboa: Europa-América, 1975.

COSTA, B. Quando os Vascos Eram Santanas...e Não Só. Lisboa: Europa-América, 1977.

COSTA, J. B. Costa, Beatriz. IN: CASARES RODICIO, E. (Editor y Coordinador). Diccionario del Cine Iberoamericano: España, Portugal y América. Madrid: SGAE/Fundación Autor, v. 2, 2011, p. 930-931.

COSTA, J. B. O Cinema Português nunca existiu. Lisboa: Clube do Colecionador/CTT, 1996.

COUTINHO e COSTA, J. ; COSTA, J. M. (coords.). A Comédia Clássica Portuguesa. A Coruña: CGAI/Xunta de Galicia/Cinemateca Portuguesa, 1994.

GOMES de MATTOS, A.C. Histórias de Cinema: Beatriz Costa. http://www.historiasdecinema.com/2015/07/beatriz-costa/. Acesso em 20.03.2017.

MATOS-CRUZ, J. O Cais do Olhar: o cinema português de longa metragem e a ficção muda. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 1985.

PINA, L. História do Cinema Português. Lisboa: Europa-América, 1986.

RAMOS, J. L. Dicionário do Cinema Português: 1895: 1961. Lisboa: Editorial Caminho, 20