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  Título
LIN E KATAZAN: IMAGENS DE EDARD NAVARRO, PALAVRAS DE CHICO BUARQUE
Autor
Maria do Socorro Sillva Carvalho
Resumo Expandido
O cinema na Bahia dos anos 1970 é caracterizado por uma produção experimental em Super-8, da qual Edgard Navarro é o nome mais expressivo. Em 1979, ele realiza sua quarta experiência superoitista, o curta-metragem Lin e Katazan, com imagens sobre um fragmento de Fazenda Modelo; novela pecuária (1974), de Chico Buarque. Seis anos depois, o cineasta refaz as imagens do filme, agora em 35mm, mantendo o texto, a narração e a música da versão anterior. Embora ele afirma que o primeiro filme é apenas um ensaio para o segundo (lembrando que foi no momento em que Navarro descobrira a meditação, daí sua afirmação que Lin e Katazan é seu “filme zen”), esses exercícios fílmicos são reveladores das possibilidades criativas em torno da relação cinema e literatura, palavra e imagem, além de serem documentos importantes para se entender mais largamente tanto o cinema quanto a literatura em suas dimensões estéticas, culturais, sociais e históricas. Se no primeiro curta-metragem Lin é representado por um ator bastante parecido com o realizador, sobre o qual as imagens se concentram, o Lin de 1985 é um personagem negro, cujo corpo ocupa lugares diversos, mais amplos e distantes da obra de construção civil onde trabalha, sempre vigiado por Katazan, representados por homens brancos nas duas versões do curta-metragem. Apesar de visualmente diferentes, os filmes mantêm o mesmo texto – são 50 linhas do capítulo XIII (Os formandos) da “novela pecuária” de Chico Buarque, ambos narrados pelo próprio realizador, com música de Walter Smetak. Se as palavras se repetem – trata-se do jovem Lin, cumpridor disciplinado das ordens de Katazan, mas sem lhe dar nenhuma importância, preferindo nas horas vagas conhecer o próprio corpo, explorando seus prazeres e limites –, Edgard Navarro altera as imagens, o ritmo, a duração, as cores e os enquadramentos da segunda versão do filme, dando-lhe novos significados, inclusive diversos do tom alegórico da novela, na qual Lin é uma novilha e Katazan um dos quatro agentes de confiança do general comandante da fazenda, enquanto nos filmes Lin é um operário da construção civil e Katazan, o capataz. Logo, fica evidente a necessidade de entender a relação entre as três obras, em particular, os caminhos que levam o cineasta a construir esses dois filmes curtos (o “ensaio” tem 5 min e o “filme” tem 8 min) a partir do mesmo fragmento de texto, definido pelo realizador como um “retrato do Brasil dos generais e o país dos ‘yogins’. Com esses filmes-ensaios sobre o exercício da liberdade, Edgard Navarro aborda o medo que o opressor nutre pelo homem livre, por isso, Katazan mata Lin, que se deixa morrer justamente por ter a consciência da liberdade em seu próprio corpo. Portanto, trata-se aqui de ampliar a análise do “cinema de invenção” de Edgard Navarro, marcado pelas questões da autoficção, dos gestos que impõem a transgressão contra os limites, a contestação que leva ao núcleo do vazio, como afirma Foucault. O vazio sintetizado na queda de Lin (jogado por Katazan) do topo do prédio em construção. Queda que voltará a ser tematizada em Superoutro (1989), filme emblemático de Navarro, que também discute a busca da liberdade, no qual o maior desejo do personagem é voar. Assim, ao se jogar do alto do Elevador Lacerda (cartão postal da cidade de Salvador), Superoutro não morre, mas voa, provando uma máxima do cinema navarreano: “abaixo a gravidade”. Nessa perspectiva, a liberdade (de Lin) vai se sobrepor a toda opressão (de Katazan) a cada vez que a leveza vencer a gravidade, na vida ou na arte.
Bibliografia

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