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  Título
Breves notas sobre a noção de filme como “dispositivo de alerta”
Autor
Mauro Luiz Rovai
Resumo Expandido
A proposta deste texto é tentar explorar a noção de filme como “dispositivo de alerta”, ideia que aparece em um artigo de Jean Cayrol, de 1956, e que tem como objeto o filme Noite e neblina (dirigido por Alain Resnais), filme para o qual o próprio Cayrol havia escrito o comentário. Em seguida, pretende-se discutir possíveis aproximações entre tal noção e outros dois os filmes de Resnais: As estátuas também morrem (1953, dirigido com Chris Marker) e Muriel (1963).

Para Jean Cayrol, o filme Noite e neblina não era apenas um exemplo sobre o qual meditar, “mas um apelo, um ‘dispositivo de alerta’ contra todas as noites e todas as neblinas que caem sobre uma terra que, apesar disso, nasceu no sol, e para a paz” ([1956]; 2003: p. 9 – a referência serve para todas as passagens entre aspas presentes neste resumo expandido). Tais noites e neblinas, completa o autor, seriam as manifestações extremas de opressão, e é contra isso que o filme de 1956 se coloca, na forma de um “testemunho vivo (...)”. Dez anos após o final da guerra, Noite e neblina testemunha as ruínas daquilo que foi um dos produtos da máquina de guerra alemã – o universo concentracionário. Mas não só isso. Para Cayrol, Noite e neblina não apenas se aproximou “da realidade concentracionária”, mostrando, além do “céu indiferente das imagens secas”, “as nuvens ameaçadoras sempre em movimento do racismo eterno” - uma das formas, entre as muitas, que pode assumir a aniquilação do humano pelo humano.

A forma como Cayrol faz referência ao que chama de “dispositivo de alerta”, como se pode perceber, é poética, mas não deixa de sugerir várias pistas. Uma delas é a de que o filme apenas se “aproxima” do fenômeno concentracionário. A outra, a de que tão importante quanto apontar a imagem do inimigo (mostrá-lo, no caso, a imagem da Alemanha hitlerista), é apontar que a opressão não tem rosto, mas se configura em uma espécie de sistema cujo mecanismo, como as “nuvens” que mudam constantemente de forma, estão sempre em movimento. Assim, o filme, ao abordar o fenômeno da deportação e se aproximar da realidade concentracionária, não propriamente fixa a imagem desta. Como “dispositivo de alerta”, ele permitiria uma aproximação das atualizações que as imagens da opressão assumem. A opressão, pois, aparece como uma ameaça constante, pois não tem um rosto fixado; e é justamente por mostrar as mudanças das formas de opressão que Noite e neblina se apresentaria como “dispositivo”.

Com base nos prolongamentos desta perspectiva de Cayrol, pretende-se discutir, ainda que brevemente, se é possível tomar (e como) outros filmes de Resnais, As estátuas também morrem e Muriel, em particular, no mesmo registro, isto é, como “dispositivos de alerta”.
Bibliografia

BEUGNET, Martine. Du film d’art à l’art du film. Les statues meurent aussi de Chris Marker et Alain Resnais. In Arts plastiques et cinéma (org. Sébastien Denis). CinémAction. Condé-sur-Noireau : Corlet Publications, 2007, pp. 39 – 47.

CAYROL, Jean. Nous avons conçu Nuit et Brouillard comme un dispositif d’alerte. Extraído do artigo publicado no no. 606 de Lettres Françaises (fevereiro de 1956) e presente no livreto que acompanha o DVD de Nuit et brouillard (Arte vidéo, França, 2003).

LINDEPERG, Sylvie. Nuit et brouillard. Un film dans l’histoire. Paris : Odille Jacob, 2007.

SAMSON, P. O lirismo crítico de Alain Resnais. In PINGAUD, B. & SAMSON, P. Alain Resnais ou a criação no cinema. Trad. T. C. Netto. São Paulo: Ed. Documentos, 1969, pp. 169 – 181.

Filmes de Alain Resnais

As estátuas também morrem. França, 1953. 30 min., son., p&b.

Muriel, ou o tempo de um retorno. França e Itália, 1963. 112 min. son., color.

Noite e neblina. Alain Resnais. França, 1956. 32 min., son., p&b e color.