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  Título
Passeio pelos rios aquerônticos da História: ensaísmo e arte
Autor
Álvaro Renan José de Brito Alves
Resumo Expandido
Pretende-se pensar, neste estudo, a prática do ensaísmo na produção audiovisual contemporânea, bem como na literatura, pondo em diálogo diferentes artistas como Chris Marker, Godard e Farocki (no cinema) e W.G. Sebald (na literatura); o ensaísmo como forma e procedimento artístico, mas sobretudo como forma menor, tão avessa ao cientificismo positivista (Adorno) quanto às formas maiores da literatura e da arte em geral (Deleuze, Guatarri). O ensaísmo como forma e procedimento constitui o modo privilegiado com que se realiza a obra do cineasta Chris Marker, bem como do escritor W.G. Sebald, mas se encontra também numa certa maneira disjuntiva de articular imagem e som presente em Godard, na escrita diarística de Jonas Mekas ou na reflexão crítica de Harun Farocki. A reflexão aqui empreendida aproxima estes artistas para entender de que maneira a forma “menor” do ensaio interpela, questiona e problematiza os modelos tradicionais de construção do saber, apresentando-se como alternativa potente no contexto de crise das representações e das grandes hermenêuticas que marcou boa parte do século XX e redefiniu o estatuto das ciências humanas, bem como das práticas artísticas e comunicacionais. O autor pensa elaborar uma cartografia possível do ensaísmo nas práticas do audiovisual, mas lidando também com eixos temáticos cruciais na obra destes artistas, a saber: o testemunho histórico através da articulação de imagem e palavra, a teoria da memória e do trauma (com forte presença fantasmática do pensamento benjaminiano), a escrita e prática da historiografia, além do forte pendor ao metacomentário sobre as capacidades e impossibilidades da Imagem em relação ao passado.

Adorno (2012: 16-17, 29) dizia sobre o ensaio que este não admitia que “seu âmbito de competência” lhe fosse “prescrito”, nem que sua preocupação era a de “alcançar cientificamente ou criar artisticamente alguma coisa”, mas que seus esforços dirigiam-se a um pensamento lúdico e sem propósito sobre "o que os outros já fizeram". Dizia ainda que o ensaio “reflete o que é amado e o que é odiado, em vez de conceber um espírito como uma criação a partir do nada”. O ensaio começa de um objeto qualquer e “termina onde sente ter chegado ao fim, não onde nada mais resta a dizer”, ocupando, assim, “um lugar entre os despropósitos”. Mas seja lá o que quer que se tome como despropósito, é somente em relação a um saber hegeliano do absoluto ou dialético transcendental kantiano; o ensaio não mais refere-se a categorias universais e transcendentais, tampouco submete-os a uma razão que não para de fundamentar, exaustivamente, seus procedimentos e metodologias. Seguindo outra via, o ensaio aproxima-se do objeto colocando-o numa malha conceitual que não para de relançá-lo a novas direções a cada vez que o sujeito aceita implicar-se, entrelaçar-se no objeto, assimilando sua própria experiência intelectual como “procedimento definidor” de sua investigação. Esta não mais sequencia os conceitos num “continuum de operações”, levando o pensamento a avançar “em um sentido único; em vez disso, os vários momentos se entrelaçam como num tapete”. É neste sentido que Adorno afirma que o ensaio “procede metodologicamente sem método” e que “a felicidade e o jogo lhe são essenciais”, pois ele resgata o pensamento crítico das amarras do academicismo e do cientificismo, interpelando suas metodologias e suas epistêmes, colocando seus ideais de certeza entre aspas.

É talvez partindo de uma tal premissa que o artista adota o ensaísmo como metodologia organizadora de suas reflexões sobre o mundo e, mais fortemente, sobre as imagens da História desse mundo. Ao pensar sobre suas imagens, seja as de registro pessoal, seja as de um arquivo coletivo, o artista implica-se nelas como uma criança fascinada ou assustada diante de objetos inescrutáveis. Mas, para os artistas aqui estudados, o ensaísmo é também o movimento errante de um pensamento que navega os rios de morte e trauma da História.
Bibliografia

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