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  Título
O sagrado e o profano no filme “Cavaleiro de copas” (2015)
Autor
Sander Cruz Castelo
Resumo Expandido
Ao contrário do que se imagina, a secularização do mundo não destruiu a esfera do sagrado. Pode-se, mesmo, afirmar que se trata de uma dimensão incontornável da vida humana. Uma “forma de experiência”, mais do que um “conceito intelectual”, o sagrado é expresso mais diretamente na arte – hábil em mesclar emoção e razão – do que nos escritos acadêmicos (cf. WEBB, 2012: 9; 15-6).



O sagrado possui, pois, necessariamente, um polo “imanente” e um “transcendente”. Segundo Webb, “o polo transcendente do sagrado é a fonte ou o fundamento de sua qualidade sacra”, ao passo que “o polo imanente é seu veículo, o meio pelo qual ele se torna acessível ao homem” (2012: 17-8).



Os maiores estudiosos do sagrado, destacando-se Rudolf Otto e Mircea Eliade, identificam-no com a emergência das seguintes sensações: de assombro ou terror, o objeto sacro, “impenetrável e incompreensível”, subjugando o intelecto; de majestade, dado seu poder extremamente superior; de fascínio, em razão da plenitude de sua existência; de alteridade, isto é, de que nada se assemelha a ele; de criatura, ou seja, de “dependência ontológica integral” a ele; e de iniquidade, qual seja, de “abissal deficiência ou indignidade” (WEBB, 2012: 17-8).



As sensações despertadas pelo sagrado dependem do polo que se afirma mais vigorosamente. Predominando o polo transcendente, afloram o assombro/terror e a iniquidade. Sobressaindo o polo imanente, despontam a salvação, o perdão, o renascimento e a participação no sagrado (WEBB, 2012: 19).



Ainda que Webb tome como escopo a literatura, a capacidade técnica e estética (crescente) do cinema lhe confere grande expressividade, incluída a representação do sagrado (VADICO, 2015).



Além do “campo do filme religioso” propriamente dito, a “hierofania fílmica” se expressa por meio do “cinema autoral”, numa categoria própria: a dos “Filmes que Dialogam com o Campo do Religioso” (VADICO, 2010: 191-2). Dá mostra disso a obra de um cineasta como Terrence Malick, para quem “existem dois caminhos na vida: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você precisa escolher qual deles vai seguir” (abertura do filme “A árvore da vida” [2011]).



Com base nesses pressupostos, analisa-se como o sagrado (e o profano, seu oposto) é apresentado no filme “Cavaleiro de copas” (Knight of cups, EUA, 2015), de Terrence Malick (EUA, 1943). O objetivo é o de identificar como o polo imanente e o polo transcendente do sagrado se expressam no filme.



Os materiais da pesquisa consistem no filme supracitado e em entrevistas, reportagens, críticas e obras acadêmicas sobre ele geradas (e.g. BARNETT, ELLISTON, 2016). Teórica e metodologicamente, a investigação se esteia no livro de Eugene Webb (2012) acerca do sagrado na literatura moderna (e nas obras clássicas sobre a categoria do sagrado que o fundamentam, a saber, OTTO [1997] e ELIADE [1992]); nos trabalhos de Luiz Vadico relativos ao sagrado no cinema, especialmente a instrumentalização da noção de “hierofania fílmica” (2015) e as reflexões sobre a intersecção do “cinema autoral” com o “campo do filme religioso” (2015; 2010); e em textos de teoria, narrativa e estética cinematográfica, que servem à análise fílmica.
Bibliografia

BARNETT, Christopher B.; ELLISTON, Clark J. (eds.) Theology and the films of Terrence Malick. New York: Routledge, 2016.



ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.



OTTO, Rudolf. O Sagrado: aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. Petrópolis, R. J.: Vozes, 1997.



VADICO, Luiz. A hierofania fílmica. A representação da manifestação do sagrado em dois filmes hollywoodianos: A canção de Bernadette (King, 1948) e O milagre de Fátima (Brahm, 1952). Tríade: comunicação, cultura e mídia, Sorocaba, SP, v. 3, nº 5, p. 145-62, jun. 2015.



VADICO, Luiz. O campo do filme religioso. Revista Olhar, São Carlos, SP, ano 12, nº 23, p. 178-93, ago.- dez. 2010.



WEBB, Eugene. A pomba escura: o sagrado e o secular na literatura moderna. São Paulo: É Realizações, 2012.