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  Título
"Manias" na mise-en-scène: a construção gestual de Daniel Day-Lewis
Autor
Daiane Freitas Guimarães Gonçalves
Resumo Expandido
Os modos de atuação do ator de teatro são expansivamente estudados. A transposição da atuação dos palcos para a mise-en-scène ainda é pouco avaliado, tendo em vista o quão recentes são os estudos cinematográficos em comparação aos teatrais. No entanto, nos primeiros estudos sobre a atuação cinematográfica, prevalecia o conceito de ator de cinema interpretar apenas a si, em contrapartida ao ator teatral que se transformava em suas personagens, teoria essa muito presente na era do Stars System, como evidencia Morin (1989), ao declarar que o ator de composição era exclusivo aos atores teatrais, aos cinematográficos, mais valia ser uma estátua do que precisamente atuar, “os atores de composição não são estrelas: podem-se prestar às mais diferentes personagens, mas sem lhes impor uma personalidade unificadora.” (MORIN, 1989, p.25). Porém, na contemporânea conjectura cinematográfica, a atuação ganha outros conceitos tanto do mercado das estrelas, quanto aos modos de atuação.

Morin faz referência a um dos modos de atuação presentes no cinema atualmente, o ator de composição. O qual constrói sua persona, com base na incorporação dos seus papéis, ou seja, para esse tipo de atuação o ator se amalgama com o personagem, e, dessa forma, o que se passa ao espectador é que o ator não está mais ali, mas sim seu personagem. É o que acontece com o ator britânico Daniel Day-Lewis.

A persona de Lewis é construída a partir da sua capacidade de metamorfosear-se e de dar vida a um personagem único e peculiar. Ele transporta-se de modo que o ator Daniel Day-Lewis não exista nem mesmo nos bastidores. Dessa maneira, o conceito da atuação de si mesmo se desfaz, e uma nova conceituação a respeito da atuação cinematográfica faz-se necessária, em especial, ao se analisar as estratégias de construção de personagem.

Na teoria sobre o ator de composição evidencia o fato dele conseguir dar vida plena ao seu personagem. Sua pele é apenas um empréstimo ao personagem ali exposto, assim, o ator cria recursos que possibilitam peculiaridades do personagem. Um dos recursos observados é o desenvolvimento de gestos únicos para cada personagem, diferentemente das constantes formais do gestual do ator às quais se refere Luc Moullet, em Politique des Acteurs (1993). Tais gestos são na verdade microgestos, como manias dos personagens.

No estudo da neuropsiquiatria, a mania é aquele gesto repetitivo que o indivíduo faz costumeiramente, mas que não lhe causa tensão (HOUNIE, 2012). É com o gesto do hábito que Lewis transforma seus personagens em únicos e que pouco possuem em comum. Em Sangue Negro Lewis apresenta o personagem Daniel Plainview com postura corporal oblíqua, com o andar cambaleante e com as pernas afastadas e com um olhar sorrateiro e boca comprimida, mas também o que destaca em seu personagem é o hábito de mastigar algo, como um palito, ou apenas repete o gesto de mastigar. Já em Gangues de Nova York o personagem Bill Cutting, tem o hábito de colocar uma das mãos sobre a barriga, bem como arquear as sobrancelhas.

O hábito pode ser um conjunto de gestos, que possuem uma frequência menor do que se fosse um gesto equivalente ao tique. Neste sentido, serão um conjunto de gestos que formarão o personagem e que lhe dará peculiaridade, dessa maneira, o ator de composição evidência suas técnicas de criação de personagens e renova as teorias sobre o ator cinematográfico. Sendo assim, o conceito de que o ator de cinema interpreta a si, deve ser revisitado, tendo em vista os exemplos recorrentes na cinematografia.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Notas sobre o gesto. In: FREITAS, R., GARCIA, D. e IANNINI, G.. Artefilosofia. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2015.

DAMOUR, Christophe. Al Pacino – Le dernier tragédien. Paris: Scope, 2009.

HOUNIE, A.G., & MIGUEL, E.C. Tiques, cacoetes, Síndrome de Tourette. Um Manual para Pacientes, seus familiares, educadores e profissionais de saúde. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.

MORIN, Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

MOULLET, Luc. La Politique des Acteurs. Paris: Editions de l’Etoile - Cahiers du Cinéma, 1993.

STANISLAVSKI, Constantin. A construção da personagem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.