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  Título
A noção de estilo na abordagem crítica do cinema para Gilles Deleuze
Autor
ANDRE LUIS LA SALVIA
Resumo Expandido
O enquadramento (e suas características) e o plano (e seus movimentos) determinam a imagem cinematográfica como uma imagem sinalética, fazendo dela um sinal, um signo, que, como tal, expressa algo. E a montagem, por sua vez, prolonga estes sinais relacionando as imagens e dando um sentido total que elas não têm por si só. Os enquadramentos, os planos, os signos e as montagens são as manifestações de uma “consciência” cinematográfica, possibilitadas pelo aparelho câmera. Diz Deleuze que “a única consciência cinematográfica – não somos nós, o espectador, nem o herói – é a câmera que é ora humana, ora inumana ou sobre-humana”1.

Desse modo, enquanto expressão de processos intelectuais que lida com matérias inteligíveis, a montagem servirá a Deleuze como um procedimento analítico para abordar os diferentes autores ao longo da obra Cinema, chegando a afirmar que:



“Este tipo de análise é desejável para todo autor, é o programa de pesquisa necessário para toda a análise de autor, o que se poderia chamar de ‘estilística’; o movimento que se instaura entre as partes de um conjunto num quadro, ou de um conjunto a outro num reenquadramento; o movimento que exprime um todo num filme ou numa obra; a correspondência entre os dois, a maneira segundo a qual eles se respondem mutuamente, passam de um ao outro.”2.



Podemos notar na citação, os três aspectos funcionais da montagem na composição da noção de estilo. Há diferentes “estilos” de montar, ou seja, há diferentes formas de enquadrar, criar movimentos entre os planos e conceber o todo do filme. Por isso Deleuze afirma que “podemos considerar certos grandes movimentos como a assinatura própria de um autor”, ou seja, as singulares formas de criar imagens e relacioná-las, dentro dos regimes da Imagem-movimento e da Imagem-tempo. A estilística seria o modo de analisar as montagens enquanto processos intelectuais dos cineastas e é isso que Deleuze faz ao longo de toda a obra.

Desse modo, o estilo de cada cineasta são suas singulares formas de construir imagens que são matérias inteligíveis em um fluxo que é um processo de pensamento. Cinema e pensamento estão intimamente ligados. E é a montagem a operadora dessas relações mentais. A montagem torna-se criadora de fluxos, de devires: as relações entre imagens criam um devir que o espectador entra. A câmera funciona como uma “consciência” cinematográfica que, com sua mobilidade “humana” e “sobre-humana” e com a montagem, opera o cinema.

Deleuze se referiu a criação cinematográfica na célebre conferência sobre o cinema chamada de Ato de criação:



O que vocês inventam não são conceitos — isso não é de sua alçada —, mas blocos de movimento/ duração. Se fabricamos um bloco de movimento/duração, é possível que façamos cinema. Não se trata de invocar uma história ou de recusá-la. Tudo tem uma história. A filosofia também conta histórias. Histórias com conceitos. O cinema conta histórias com blocos de movimento/duração. A pintura inventa um tipo totalmente diverso de bloco. Não são nem blocos de conceitos, nem blocos de movimento/duração, mas blocos de linhas/cores.



Blocos de movimento e duração, significa que os cineastas inventam planos e relações entre planos que fazem uma imagem do movimento e do tempo. O suporte são as imagens enquadradas e os signos que elas comportam. Cada cineastas cria seus próprios signos para operar seus blocos de movimento/duração. E nesse sentido esta semiótica ira estudar a formação de kinoestruturas e cronogeneses – estruturas de movimentos e invenções de tempo, por isso criações de blocos de movimento-duração. Portanto, a análise desejável para todo autor é aquela que está sensível aos signos como operadores dos movimentos e tempos de um fluxo cinematográfico. É nesse sentido que acreditamos que a noção de estilo de um cineasta é construída nessa obra, enquanto uma categoria de análise de filmes enquanto matéria inteligível e processo intelectual.
Bibliografia

BAZIN, André. O Cinema: ensaios. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1991.

BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1999.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo, cinema2. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1990

_______________. A Imagem-movimento, cinema 1. São Paulo, Editora Brasiliense, 1985

_______________. Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992

_______________.O Ato de Criação. Caderno MAIS!, Folha de São Paulo, 27/06/1999

_______________e GUATARRI, Félix. O Que é a filosofia? Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992

ORLANDI, Luiz B.L., Deleuze trata da filosofia em tempo de cinema. Folha de São Paulo, Caderno Letras, sábado, 11 de agosto de 1990.

PARENTE, André. Narrativa e modernidade: os cinemas não-narrativos do pós-guerra. Campinas, SP : Papirus, 2000.

PELBART, Peter Pal. O tempo não-reconciliado : imagens de tempo em Deleuze. São Paulo : FAPESP : Perspectiva, 1998.