Voltar para a lista
 
  Título
O CINEMA PRESCRITO: SALAS, DISPOSITIVO, EXPERIÊNCIA
Autor
José Cláudio Siqueira Castanheira
Resumo Expandido
Kracauer chama os grandes cineteatros da Berlim dos anos 1920 de “palácios da distração”. E complementa: “defini-los simplesmente como cinemas seria depreciativo” (KRACAUER, 2009, p. 343). José Inacio de Melo Souza identifica na construção de cinemas no Brasil, especialmente em São Paulo durante o mesmo período, uma adequação ao modelo dos movies palaces estadunidenses. Salas com grande capacidade e sujeitas ao controle rigoroso das instâncias públicas ajudavam a conformar o que Souza chama de “o cinema dos engenheiros” (SOUZA, 2016). Emily Thompson (2002) trata igualmente da modificação arquitetônica das grandes casas de espetáculo, teatros e estúdios na passagem do século XIX para o século XX por uma perspectiva do rigor técnico quanto às condições espectatoriais. O controle matemático preciso das características do som; o desenvolvimento de novos materiais isolantes e absorventes; a eletrificação generalizada pela qual os grandes centros urbanos estavam passando modificavam não apenas a relação com os espetáculos – entre os quais o cinema se afirmava como um dos mais populares –, mas igualmente geravam uma nova forma de habitar os espaços públicos. A inauguração do Radio City Music Hall (Nova Iorque), em 1932, pode ser apontado como o ápice dos grandes auditórios projetados para fornecer uma experiência única e baseada em premissas técnicas bastante rígidas.

A proposta deste trabalho é pensar o condicionamento técnico do dispositivo cinematográfico como uma via de mão dupla. Em um primeiro momento a “novidade tecnológica” exerce a função de maravilhamento, produzindo efeitos de atração e com uma forte tendência a se sobrepor, em alguns casos, à própria questão narrativa fílmica. Em casos como no surgimento de modelos de grandes telas e sons em múltiplos canais como o CinemaScope (1953), o Cinerama (1952), o Todd-AO (1956) entre outros, novas demandas cognitivas são impostas ao público, exigindo mesmo uma readaptação e um reposicionamento do público no espaço. O perfeccionismo técnico, contudo, exibe uma outra faceta que é a de tentar exercer controle absoluto sobre esse mesmo espaço e sobre a experiência do filme. O sistema THX (1983), por exemplo, trabalha com um projeto detalhado da arquitetura da sala de projeção e das características técnicas mínimas dos equipamentos certificados de som e de imagem. A partir dos anos 1990, com o crescimento mundial dos multiplexes, a padronização das salas de cinema, muito embora acarretasse uma melhora sensível dos aspectos técnicos, também as destituiu de grande parte do charme e da particularidade de cada uma delas. O cinema torna-se uma espécie de “não-lugar”, como nos dizeres de Marc Augé (2011).

O embate entre o controle e padronização e as novas formas da experiência cinematográfica é um fenômeno cíclico que assume contornos ainda mais complexos quando incluímos os atualmente populares sistemas de streaming e demais tecnologias digitais. O fortuito, o evanescente e o indescritível acompanham o cinema desde o seu nascimento; a ciência, o previsível e o normativo também. A transformação das salas de cinema ao longo do tempo, bem como de todo o aparato técnico que as reveste, é uma boa medida para avaliar os inúmeros possíveis cinemas com que convivemos ou que deixamos de experimentar.
Bibliografia

AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução ao uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 2011.

KRACAUER, Siegfried. O ornamento da massa: ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

SOUZA, José Inacio de Melo. Salas de cinema e história urbana de São Paulo (1895-1930): O cinema dos engenheiros. São Paulo: Senac, 2016.

THOMPSON, Emily. The soundscape of modernity: architectural acoustics and the culture of listening in America, 1900-1933. Massachusetts: The MIT Press, 2002.