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  Título
As duas faces de Gustavo Dahl em Uirá: entre o realizador e o crítico
Autor
Margarida Maria Adamatti
Resumo Expandido
Em meados de 1974, o cinemanovista Gustavo Dahl passou a escrever no jornal alternativo Opinião, veículo de oposição ao regime militar. A data coincide com o lançamento de seu longa-metragem, Uirá (1973), liberado pela censura no mesmo período. A primeira crítica de cinema de Dahl no Opinião significou um exercício de autoanálise do realizador sobre seu mais recente trabalho. Baseado numa história real relatada por Darcy Ribeiro, o filme contava a trajetória de um índio inconformado com a morte do filho, em decorrência das doenças trazidas pelos brancos. Procurando em terra o paraíso perdido para onde vão os mortos, Uirá sofre todo tipo de violência da civilização branca.

Quando chegou ao Opinião, o editor de cultura do jornal, Júlio César Montenegro Bastos, recebeu Dahl como cineasta censurado e perseguido pelo regime. A censura cortou algumas cenas do filme e fez restrições à idade mínima, por contrariar o “interesse nacional”. O motivo do atrito girava em torno das cenas de “hostilidade dos brancos contra o índio”, que seriam passíveis de “transmitir à plateia uma mensagem discrepante da verdade”.

Se o sentido político pode parecer evidente nas inúmeras agressões físicas sofridas por Uirá durante o Estado Novo, como pontuou José Carlos Avellar na época, a recepção crítica nem sempre trilhou este caminho. Opinião publicou três artigos sobre o filme de Dahl: uma nota com os elogios dos membros das forças armadas, a autocrítica do próprio realizador e um ensaio de Glauber Rocha. As três matérias transformam o trabalho de Dahl numa quase unanimidade à esquerda e à direita, porque o coro de elogios vem de fontes antagônicas: dos militares até chegar a um cineasta exilado.

Num primeiro momento, a discrepância dos comentários de Glauber e de Dahl em Opinião pode gerar a impressão de que ambos assistiram a filmes diferentes. Em artigo escrito na primeira pessoa do singular, o próprio realizador vê Uirá como obra “experimental” e “suja”, diferente de seu longa-metragem de estreia, O Bravo Guerreiro (1968). Ao elogiar a “simplicidade figurativa” do cinema clássico americano, Dahl aproveita a brecha para condenar “as audácias da montagem e fotografia” do Cinema Novo, que “já sabem a vinho azedo”. Enquanto isso, Glauber Rocha descreve um filme moderno com montagem dialética ligada ao materialismo histórico. Além disso, ele frisa o quanto o material de Uirá significa uma continuidade com os preceitos cinemanovistas, que Dahl procurava ocultar em seu artigo. Dessa forma, os textos podiam gerar uma expectativa por parte do público para descobrir qual das versões correspondia ao filme. Nesse sentido, interessa-nos debater, com especial atenção, a composição textual por antinomias das críticas de cinema de Gustavo Dahl e Glauber Rocha no comparativo com a recepção da imprensa.

Ao descrever Uirá como filme clássico, a postura de Dahl pode ser vista como uma continuidade de sua defesa do mercado e de seu papel estratégico no setor de distribuição da Embrafilme, pouco tempo depois? Chama a atenção especialmente o quanto os textos citados trazem variações de sentido em torno do cinema político, fazendo ora um esforço conceitual comparativo com o cinema clássico americano ou com a resistência cinematográfica. Por essas razões, a realização de Uirá e a sua recepção crítica possibilitam avaliar os espaços intersticiais entre a atuação de Gustavo Dahl como crítico de cinema, realizador e gestor cultural.

A proposta da comunicação inclui a discussão do sentido de cinema político a partir da materialidade do filme e do cotejo com a crítica. Duas temáticas são fundamentais nesse debate: o uso da emoção no cinema e o processo de identificação com o público. O debate possibilita repensar a continuidade da obra dahliana em relação ao Bravo Guerreiro (1968). Trata-se de analisar se o pensamento do Dahl crítico de cinema coincide com as chaves-mestre do Dahl realizador.
Bibliografia

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