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  Título
Pintescrituras : Memória, Imagem , História(s) em Greenaway
Autor
Marco AntônioVieira
Resumo Expandido
Pintescritura: neologismo cunhado para lidar com as complexidades epistemo-fenomenológicas das fronteiras entre palavra e imagem em Virginia Woolf e Peter Greenaway sob um pano de fundo teórico de inclinação lacaniana.



Intenta-se aqui iluminar algumas das complexas fronteiras que a obra do cineasta e artista multimídia galês Peter Greenaway mantém com programas narrativos presentes na Arte Contemporânea. Seus curtas e média-metragens H is for House (1973) , Vertical Features Remake (1976) e A walk through H : the reincarnation of an ornithologist (1978) adquirem sua peculiaridade tropológica precisamente por travestirem-se de uma forma híbrida que se apropria parodicamente do gênero documentário .



Tal travestimento paródico perturba a um só tempo a circunscrição histórica de distintos gêneros fílmicos e acaba por apontar para a fragilidade do caráter veritativo a que se associa o documentário. Ficionaliza-se o documento e documenta-se sua possibilidade de ficcionalização. Para além das óbvias implicações filosóficas a envolver o estatuto da verdade e seus desdobramentos para a constituição do saber histórico, a artificialidade explícita e jocosa que marca o tom destes exercícios fílmicos aproxima-se de obras nos mais distintos suportes que integram o circuito da Arte Contemporânea , como , por exemplo, a artista visual Rosangela Rennó e sua construção narrativa em torno da apropriação de fotografias produzidas por outrem para compor painéis poéticos que oscilam entre ficção e realidade.



A afiliação pictórica de Greenaway , evidente em toda a sua exuberância em seus longa-metragens, aqui assume feições que flertam de maneira muito mais explícita com procedimentos e encaminhamentos discursivos mais afeitos à dimensão intelecto-conceitual da Arte Contemporânea. Uma aparente discontinuidade ou descompasso constitutivos, é importante ressaltar, entre a palavra e imagem contribui para a delimitação de um território estético autocontido , marcado pela ironia ,em que há , como se o sustento aqui, uma concentração extrema na lógica do significante lacaniano “ o significante representa o sujeito para outro significante’ , máxima de Lacan em que se acentua a dimensão estrutural da linguagem em sua relação com o sujeito. O autômato vivo que rege os mecanismos e funcionamentos da linguagem , à revelia daquele que diz falar em seu nome.



É esta a dimensão que rege estes exercícios nos curtas de Greenaway em que os elementos narrativos compõem-se de dados mascarados no mais das vezes de cientificidade biológica , de dados biográficos falseados, de complexas tensões entre imagem e texto. Uma acentuação que recai portanto sobre a memória eidética (formal) das formações sígnicas , narrativas pautadas pela mais radical arbitrariedade do signo. Obras que se apoiam no poder de uma independência narrativa em relação ao mundo.



Interessa aqui esboçar alguns dos meandros de uma tal memória sígnica marcada por anacronismos históricos , sustentada por suas similitudes sincrônicas , investida de irrupções sintomais e fantasmáticas ( Aby Warburg) , a presença de personagens fictícias afetadas ( pathemata) pela História de maneira enviesada. Uma memória que , como se a entende aqui, aparenta indicar o ‘corpo-falante’ do último Lacan , este corpo que é o lugar do Outro, um corpo que ‘acontece’ em sua fisiologia irredutível a qualquer linguagem acomodatícia. Corpo alegórico a estruturar um caminho teórico e narrativo. Corpo que irá emergir em sua plenitude metafórica, metonímia e visual nos longa-metragens de Greenaway a partir da década de 80 do século XX.
Bibliografia

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