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  Título
Guerra de Estrelas?: O Star-System e as Revistas Italianas(1938-1944)
Autor
Cid Vasconcelos de Carvalho
Resumo Expandido
Tendo proporcionado um dos primeiros fenômenos de estrelismo no cinema, não plenamente cinematográfico já que sua aura advinha de meios exteriores ao cinema (teatro, ópera), com o divismo na década de 1910, como o cinema italiano vivencia o star-system nos anos do fascismo, sobretudo naquele relativamente breve hiato que ocorre entre o boicote das produtoras norte-americanas, no fnal de 1938 ao retorno massivo do cinema norte americano no pós-guerra? Nossa análise leva em conta publicações mais avessas ao estrelismo como Lo Schermo, em que o mesmo pode ser encontrado frequentemente somente na própria capa da revista, e Cinema, em que o vedetismo se confundia em suas páginas com questões vinculadas à estética e a função do cinema, assim como suas particularidades técnicas; e também outras ainda mais receptivas ao estrelato em seus artigos e configuração gráfica como Film, Cinema Ilustrazioni e, principalmente, como o próprio nome indica, Star. O recorte das publicações tende a privilegiar os anos finais do regime de Mussolini, assim como a frequência de publicação das mesmas e sua disponibilidade para consulta. O estrelismo permite o ingresso em questões que dizem respeito tanto ao campo mais específico do cinema, como a passagem do modelo de estrela “anagráfica” para “biográfica” quanto, por exemplo, a representação das mulheres pelo cinema e a fofoca sobre as vedetes. Com relação ao primeiro tópico, os termos sugeridos perspicazmente por King (2015) por volta do surgimento do cinema sonoro e dizendo respeito à transição da identificação com um “tipo” nos filmes e nas revistas para uma biografia mais específica e “realista”, novamente em filmes e revistas, “participando da vida quotidiana dos mortais.” (Morin, 1989 [1972], p. 20). No caso da fofoca, que antes mesmo de sua profissionalização de modo mais sistemático na década de 1950 nos Estados Unidos, já se tornara popular na grande imprensa e, na sua forma mais ferina, apenas ocasionalmente nas revistas de fãs como aponta Slide (2010). Muito possivelmente, o sistema em voga na indústria italiana, indústria essa já bem mais consolidada que a brasileira, também fosse bastante tímido em relação às fofocas, provavelmente ainda mais que os ensaios de mal travestidos golpes publicitários da década seguinte no Brasil observados por Adamatti (2008). E tampouco a “forma-estrela”, na sua versão italiana, talvez apresente sua ilusão biográfica de modo apropriadamente “coerente”, como seu modelo de inspiração hollywoodiano. Ainda assim, como em seu protótipo, essa figura que, ao mesmo tempo é representante máxima de uma categoria profissional e uma forma de capital fundamental no financiamento de uma produção (McDonald, 2000), assim como igualmente de custos – Michelangelo Antonioni, p.ex, critica esse “novo divismo” em editorial (Cinema, 10/08/1939, p.85) se torna seminal para a popularização do cinema italiano em seu próprio país, como o próprio Antonioni concorda. Torna-se evidente, em última instância, que quando se fala em estrelas fica praticamente impossível delimitar algo como intra ou extra-campo do cinema, pois mesmo quando se acrescenta dados biográficos à estrela, um “passado”, ainda quando extremamente fabulado pelos departamentos de publicidade dos estúdios, ou vislumbres de uma intimidade igualmente produzida, a todo momento se lida com um duplo movimento: as expectativas dos leitores-fãs por um lado e a elaboração de uma “didática” do que é considerado moderno e, portanto, digno de ser copiado pelos fãs, algo bastante comum igualmente no caso brasileiro de revistas de grande influência como O Cruzeiro. Embora a reprodução do star-system hollywoodiano, tal como no caso brasileiro, tenha sido o que dominou o universo das publicações e as telas de cinema também no período fascista, no momento em questão tanto por conta do boicote quanto posteriormente pela guerra, uma alternativa é esboçada valorizando as estrelas italianas assim como do Eixo, notadamente Alemanha.
Bibliografia

Adamatti, Margarida Maria. A Crítica Cinematográfica e o Star-System na Revista de Fãs. Dissertação de Mestrado. São Paulo: ECA/USP, 1998.

Gundle, Stephen. Mussolini's Dream Factory - Film Stardom in Fascist Italy. Nova York/Oxford: Berghahn, 2016.

King, Barry. Taking Fame to Market - On the Pre-History and Post-History of Hollywood Stardom. Nova York: Palgrave/McMillan, 2015.

McDonald, Paul. The Star-System. Hollywood's Production of Popular Identities. Londres: Wallflower, 2000.

Morin, Edgar. Estrelas - Mito e Sedução no Cinema. Rio de Janeiro: Jose Olympio Ed., 1989 [1972]

Slide, Anthony. Inside the Hollywood Fan Magazine. Jackson: U Press of Mississipi, 2010.