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  Título
Análise da versão restaurada do filme “O padre e a moça”
Autor
Débora Lúcia Vieira Butruce
Resumo Expandido
Este trabalho pretende investigar a versão restaurada do filme “O padre e a moça”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade em 1965. O restauro dessa obra está inserido no projeto de restauração digital, iniciado em 2003, de toda a filmografia do cineasta. Iniciativa pioneira na utilização da tecnologia 2K (padrão de resolução de 2048×1556 pixels) no Brasil e, portanto, momento decisivo para a consolidação da atividade no país por conta da introdução das ferramentas digitais deste porte, nunca antes utilizadas para tal fim.

A restauração audiovisual pode ser considerada uma das práticas da atividade de preservação que mais se transformaram com o advento do digital. No caso brasileiro, não foi diferente. Desta forma, a análise da restauração de “O padre e a moça” será exemplar neste sentido, pois marca o início da utilização de uma nova tecnologia no país, o que injetou novo fôlego à área, marcada pela crônica falta de recursos e por iniciativas pontuais de investimentos.

A chegada da década de 2000 representou o início de um significativo número de projetos de restauração de filmes brasileiros, se destacando o restauro de títulos de diretores integrantes do movimento conhecido como Cinema Novo. O que mais chamou a atenção foi a atuação das famílias herdeiras dos cineastas, no papel de protagonistas desse movimento de recondução das obras ao conhecimento público. Este é o caso de Joaquim Pedro de Andrade, diretor de “O padre e a moça”. O projeto de restauração de sua filmografia completa foi idealizado pelos filhos do diretor, Alice, Maria e Antonio de Andrade, e realizado pelo Laboratório de Restauração da Cinemateca Brasileira em parceria com o Laboratório Teleimage na etapa da restauração digital, e dos Estúdios JLS na restauração do som. O processo teve uma etapa digital e uma etapa fotoquímica, pois o objetivo final foi o retorno da obra para película. Este fato acresce a importância desse exemplo, visto que a operação de retorno ao suporte fotoquímico também se constitui como etapa relevante a ser analisada, dada a natureza diferente da formação das imagens e sons no universo digital e no fotoquímico.

Considerado um filme “deslocado” do problema central na época do Cinema Novo, começou a ser revisado pela crítica no início dos anos 2000, após o seu primeiro processo de restauração, quando passou a ser considerado uma das obras mais brilhantes produzidas no período. O estado de conservação bastante precário da cópia de exibição que circulava até então parecia impedir a fruição adequada de toda a potencialidade artística do filme. O processo de restauro, portanto, permitiu a recuperação da integridade estética (e física) da obra, oferecendo a possibilidade de sua reavaliação na história do cinema brasileiro.

Desta forma, pretendemos analisar de que forma a apresentação da versão restaurada desta obra junto ao público (e a crítica) permitiu a ressignificação do seu lugar no cinema brasileiro, além das implicações das dimensões histórica e estética que este processo de restauração teve que lidar em sua relação com a obra fílmica.

Tema ainda pouco explorado nos estudos sobre preservação audiovisual no Brasil que aumentaram nos últimos anos, a área de restauração audiovisual e, por conseguinte, a análise de filmes restaurados, carece de reflexão mais detida. A partir da identificação de como os conceitos de restauração audiovisual foram apropriados em solos brasileiros, procuraremos entender qual a implicação desta compreensão no processo de restauração de “O padre e a moça”. Ou seja, em que medida se deu a interseção entre a teoria e a prática na restauração audiovisual no Brasil, buscando reconhecer a dupla instância da obra fílmica – tanto a estética quanto a histórica, e os desdobramentos possibilitados por sua reapresentação pública.
Bibliografia

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