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  Título
Gestos de Montagem @ Linguagem Audiovisual em Educação
Autor
MILENA SZAFIR
Resumo Expandido
O ensino de cinema não completou, a bem dizer, nem mesmo um século e sabemos que toda obra só; existe através da montagem (Benjamin apud Szafir, 2010). Assim, das linguagens e das técnicas do audiovisual nasce uma escrita extra-verbal como instrumento de conhecimento de efeito estético, entre ritmos, intervalos e sentidos.



Parafraseando o professor Katinsky (1999), 'aprender' é um ato soberano de vontade individual. Podemos dizer que muitas atividades se podem aprender, mas poucas se podem ensinar. Nesse caso, sé se ensina a quem já quer aprender e, portanto, propomos o ensino das artes quando ensinar e aprender forem uma única e transparente ação; ou ainda, quando toda a experiência e ideologia se fundirem na sala-de-aula: quando ensinar e aprender forem atos recíprocos, e os alunos forem mestres de seus professores.



Acreditamos na form'ação de artesãos audiovisuais [extra-]digitais e, assim, conforme aprendemos com o mestre Andrade (1938), a arte na realidade não se ensina ou se aprende, mas sim seu elemento material – o que é necessário colocar em ação para que a obra se faça. Uma pedagogia da técnica do fazer arte, vídeo, poéticas da comunicação, diálogos – retóricas – audiovisuais. Procedimentos de edição através dos diferentes dispositivos. Ensino e aprendizagem de escrituras ensaísticas – através de gestos de montagem Remix – nas estéticas entre o analógico-eletrônico e o digital off & online.



Em sua instalação "Schnittstelle" (1995), Harun Farocki pergunta-se/ pergunta-nos: “O que se passa na mesa de edição? É comparável isso a um experimento científico?”. Trata-se de uma retórica audiovisual sobre a organização (e permutação a la Turing) das imagens em movimento, como são trabalhadas a partir da perspectiva do próprio realizador que performa para a câmera como um engenheiro de maquinarias (Blumlinger apud Szafir, 2016). Nessa “Interface” trata-se de convidar o espectador a pensar agora como um montador em sua mesa de edição. Farocki nos apresenta alguns gestos de montagem característicos dos dispositivos midiáticos audiovisuais à época: o realizador podendo ser visto em seu habitat de trabalho, em seu projetar, um designer áudio-visual, tal como o fez Godard em “Roteiro do Filme Paixão” (1982). Numa alusão a Vertov (em vista de seu filme-manifesto a uma “linguagem universal”, 1929), Godard e Farocki possuem obras-sistemas metalinguísticos sobre seus gestos de montagem. Discutem também o procedimento próprio (suas lógicas) na construção do jogo de imagens e sons, as gestualidades de cada qual em seu palco-dispositivo-aparato de escritura.



Dessa maneira, em minha apresentação oral, interessa-me debater junto aos presentes os exercícios executados pelos alunos através de constantes desafios (metodologia-didática em montagem-edição audiovisual lapidada ao longo dos últimos oito anos, 2009-2017; pós "editing-apps" de 2003, 2006 e 2009-2015). No grupo universitário “IR” [Intervalos & Ritmos], temos analisado as formas 'fílmicas' com ênfase em obras que relacionem filme-ensaio, videografismos, memória e apropriação de arquivos. Tais “desafios”, como termo, significa que o papel do professor não é do sujeito que tudo sabe e traz respostas, mas antes um moderador que elabora propostas como perguntas. Ou seja, os alunos recebem desafios (questões) e são eles a trazerem as possíveis soluções para serem discutidas por todos (turma e professora) em sala-de-aula: a escritura audiovisual como um complexo sistema de montagem dialógica, o que sugere pensar os modus operandi de realização e(m) determinado(s) aparato(s) técnicos(s) de exibição além das poéticas de operacionalização técnica-tecnológica (experimentações estéticas processuais). E, assim, nessa metodologia de pesquisa e ensino-aprendizagem (pedagogia) o importante não são os produtos, mas o foco é sempre nos processos auferindo um importante valor ao procedimento dialógico junto aos alunos: um método de análise-reflexão na (à) construção das obras audiovisuais.
Bibliografia

ANDRADE, M. O Artista e o Artesão (1938; online/ 2013).

KATINSKY, J. Ensinar-aprender: por uma educação criadora. In: GOROVITZ, M. (org) Contribuição ao Ensino da Arquitetura e Urbanismo. Brasília: INEPE, 1999.

MANOVICH, L. Visualizing Vertov (2013; online acesso em 2013).

MEIRELLES, F. A Infância Consumida. In: Novaes (org). Rede Imaginária. SP: Cia das Letras, 1991.

SZAFIR, M. M-Lab MESA (versão 2). SP: Intercom, 2016.

_____. Retóricas Audiovisuais 2.1 - Ensino e Aprendizagem Compartilhada: Passado, Presente, Futuro ou Por uma Arqueologia-Cartografia da Montagem. Tese de Doutorado ECA- USP: São Paulo, 2015a.

_____. Montagens Audiovisuais extra-Apropriação - Por uma Pedagogia do Filme-Ensaio na Cultura Digital. In: Brandão, A.; Sousa, R. (orgs.) A Sobrevivência das Imagens. Campinas: Papirus, 2015b.

_____. Retóricas Audiovisuais - o filme TE na cultura em rede. Dissertação de Mestrado ECA- USP: São Paulo, 2010.

STONEMAN, R.; PETRIE, D. Educating Filmakers. Bristol: Intellect, 2014.