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  Título
A performance queer na dupla encenação do filme The Watermelon Woman
Autor
Marília Xavier de Lima
Resumo Expandido
Na primeira sequência do filme The Watermelon Woman (A mulher-melancia), 1996, de Cheryl Dunye, a imagem de uma câmera videográfica mostra uma mulher negra que se destaca entre homens brancos de ternos e mulheres brancas de saias, presentes em uma festa de casamento. No plano aberto, essa mesma mulher percorre o quadro com um rebatedor de luz nas mãos, seguindo as ordens de encenação vindas de outra pessoa fora de campo. O quadro é duplamente encenado: para a ficção da narrativa, buscando o melhor enquadramento da festa, e para o espectador, que vê o plano pela mesma câmera que, ao mesmo tempo em que encena, mostra sua encenação. Quando a pessoa que de fora dá as diretrizes entra em quadro, vê-se que se trata de uma outra mulher negra, também fora do padrão das pessoas na festa. Essa primeira sequência do filme é chave para o jogo duplo da câmera e da diretora/personagem. Nela, Cheryl Dunye filma a si mesma. A encenação fílmica promovida por ela vai da busca de uma atriz negra do cinema mudo ao seu próprio cotidiano de relações de amizade e de namoro, um híbrido entre ficção e não-ficção, uma vez que os relatos podem ser sua história mesma. A partir dessas considerações, proponho colocar em debate uma associação entre a forma e conteúdo, perpassando à teoria queer. A performance da personagem negra e lésbica transpôs as fronteiras da forma cinematográfica de ficção e do documentário. A história que Cheryl busca na forma de um documentário é a ficção criada para uma história que não existe, ou poderia existir se não fosse o patriarcado, o racismo e a lesbofobia. Criamos nossa própria história para uma realidade que não acessamos: é o que o filme parece afirmar. Por outro lado, a narrativa ficcional que implica uma câmera onisciente, mostra o cotidiano da personagem com as amigas, o trabalho, os seus relacionamentos amorosos, a sua história. Seria possível pensar a performance da diretora/atriz e da câmera como uma performance que desloca os sentidos internalizados da ficção e do documentário, pensados segundo Bill Nichols (2016), na qual a primeira é fundamentalmente uma alegoria e o segundo, uma referência ao mundo histórico? Não seria o filme então um avesso desses gêneros cinematográficos? Reflexão essa que não se afasta da maneira como a personagem lésbica é mostrada: uma construção que perturba o feminino tradicional na figura da sapatão “que corresponde a um corpo e gestos que remetem a signos habitualmente identificados com a ideia tradicional de masculinidade”, como diz Mariana Baltar (2015). O queer presente na representação da personagem lésbica se junta aqui ao deslocamento da integridade dos gêneros cinematográficos; forma e conteúdo que colocam o espectador diante do filme híbrido. Proponho ainda pensar, seguindo a perspectiva de Judith Butler (2003), como o filme se articula com a teoria queer na forma de filmar, visto isso como uma performance do gênero cinematográfico, uma vez que a criação da história sobre a vida da mulher-melancia na forma documentário torna visível a invisibilidade da mulher negra e lésbica na História. E, por outro lado, torna também visível o próprio cotidiano de Cheryl. The Watermelon Woman faz parte da emersão de um certo movimento artístico que buscou o desvio do tradicional, celebrou os personagens marginais, no qual, no cinema, foi chamado de New Queer Cinema pela crítica Ruby Rich (2015). Assim, pretendo refletir como o queer se manifesta também na forma, no intuito de repercutir esse modo de ver a outros filmes que também irrompem os limites da ficção e da não-ficção. O que seria uma imagem que não se consegue associar a uma categoria ou a um modo internalizado de ver, senão uma imagem queer?
Bibliografia

BALTAR, Mariana. Femininos em tensão: da pedagogia sociocultural a uma pedagogia dos desejos. In: MURARI, Lucas; NAGIME, Mateus. (Org.). New Queer Cinema - Cinema, Sexualidade e Política. Rio de Janeiro: 2015.



BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2016.



RICH, Ruby. New Queer Cinema: Versão da Diretora. In: MURARI, L.; NAGIME, Mateus. (Org.). New Queer Cinema - Cinema, Sexualidade e Política. Rio de Janeiro: 2015.



STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2003.