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  Título
Woody Allen e a crítica de cinema na Trumpland contemporânea
Autor
Marcos César de Paula Soares
Resumo Expandido
Em Café Society (2016), o diretor norte-americano Woody Allen revisita a década de 1930 para contar a história de Bobby Stern, um jovem judeu do Bronx que, decepcionado com a “decadência” de Hollywood, onde tenta uma carreira na indústria cinematográfica, torna-se gerente de um elegante clube em Manhattan (o Café Society do título). O sucesso do clube se deve ao fato de ele se tornar o centro de encontro da elite da cidade: políticos corruptos, agentes do crime organizado, prostitutas de luxo, trabalhadores do mercado financeiro e simpatizantes fascistas, entre outros. O conjunto é sugestivo de uma ordem contemporânea que ainda está longe de ter sido superada.



Do ponto de vista das relações intertextuais internas à obra pregressa do cineasta, duas “citações” se evidenciam. A primeira tem a ver com o filme A era do rádio (1987), cujas cenas finais se passam no interior de um “night club” idêntico àquele do filme mais recente. Nesse filme, um dos elementos interpretativos mais eloquentes está na sua trilha sonora, como é comum no trabalho do cineasta: o emprego frequente da canção “September Song”, composta pelo alemão Kurt Weill, nos remete ao musical Knickerbocker Holiday (1938), de Weill e Maxwell Anderson, pesadamente atacado na época de sua estreia pela crítica de esquerda (com a qual os dois artistas mantinham contato estreito) por ter comparado o líder liberal Franklin Roosevelt (ídolo da Frente Popular) a um líder fascista. Em ambos os filmes, como pretendo demonstrar, os clubes onde se passa a ação são ponto a ponto “negativos fotográficos” do notório Café Society, reduto da intelectualidade progressista na Nova York da década de 1930 e imortalizado na história da cidade por ter sido o lugar onde a cantora Billie Holiday tornou famosa a canção “Strange Fruit”, libelo contundente contra os linchamentos de negros comuns no sul do país.



Já a segunda relação intertextual se aproxima muito mais da Nova York contemporânea: trata-se do filme Celebridades (1998), no qual a protagonista consegue alguns minutos de conversa com Donald Trump (que faz papel de si mesmo) num clube caro da cidade, repleto de celebridades, para uma entrevista televisiva.



A leitura do filme enfatizará justamente essa confluência entre a crise aguda do liberalismo norte-americano e a ascensão da “política das celebridades”, cujo cenário no filme é uma cidade que, transformada numa série de sets de filmagem, já não se diferencia da artificialidade de Hollywood (como em outros filmes do cineasta como Noivo neurótico, noiva nervosa) e onde as formas de oposição e resistência, como mostram os destinos individuais de cada personagem, se rendem à lógica irresistível do espetáculo e do “salve-se quem puder” que caracteriza o clima ideológico da Trumpland contemporânea – e expandida em termos globais.



Ao mesmo tempo, o ponto de partida da análise serão textos que críticos contemporâneos nos Estados Unidos escreveram sobre o filme. Procurarei demonstrar que o tom geral das críticas, geralmente negativas, confirma o diagnóstico feito pelo cineasta.
Bibliografia

ANDERSON, Perry. The new old world. London; New York: Verso, 2009.



BAILEY, Peter J. The Reluctant Film Art of Woody Allen. Kentucky: The University Press of Kentucky, 2001.



BJÖRKMAN, Stig. Woody Allen on Woody Allen. New York: Grove Press, 1993.



COOK, David. Lost Illusions. New York: Scribner, 2000.



HARVEY, David. A brief history of neoliberalism. Oxford: Oxford University, 2005.



KING, George. New Hollywood cinema. New York: Columbia University, 2002.



SOARES, Marcos. "A figura do escritor em Meia-noite em Paris de Woody Allen" in Itinerários, Araraquara, n. 36, p.81-97, jan./jun. 2013.