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  Título
A representação da vida mental em Alain Resnais e Virginia Woolf
Autor
Isadora Meneses Rodrigues
Resumo Expandido
Em Je t’aime, je t’aime (1968), filme de ficção científica do cineasta francês Alain Resnais, o personagem Claude Ridder, após uma tentativa de suicídio malsucedida, é convidado a fazer parte de um experimento científico envolvendo uma viagem no tempo. Em uma de suas inúmeras voltas ao passado, há a lembrança de uma caminhada na praia com o seu grande amor, Catrine. Na cena, Ridder tenta impressionar Catrine declarando gostar da confusão e das coisas oscilantes.



Confusão e oscilação são boas definições para o embaralhamento de memórias e mistura de temporalidades que caracterizam Je t’aime, Je t’aime e tantos outros filmes de Resnais. A obra do diretor, principalmente os filmes da primeira fase da sua carreira (1959-1968), revela um interesse constante pela representação da natureza desordenada e caótica do pensamento humano, uma verdadeira investigação por soluções audiovisuais que traduzam a vida interior dos personagens. Essa busca pela representação dos mecanismos do pensamento no cinema coloca Resnais fortemente ligado à literatura. Não só à literatura de seu tempo, o Nouveau Roman, movimento literário dos anos de 1950 e 1960 com o qual Resnais manteve colaboração direta, mas também com a literatura de fluxo de consciência da primeira metade do século XX.



O fluxo de consciência, termo cunhado primeiramente na psicologia por William James e posteriormente adaptado à teoria literária, é um artifício de apresentação da ficção em que o leitor tem a sensação de que não existe um narrador intermediando o que se passa na mente dos personagens. A escritora inglesa Virginia Woolf foi uma das principais entusiastas desse novo modo de relacionar o tempo e o espaço no romance. Em seus ensaios, defendeu que o fluxo de consciência seria o meio de conectar a literatura à vida, com tudo o que ela tem de imprevisível e contraditório. Em Ficção Moderna (2014, p.109 e 110), por exemplo, Woolf declarou que para retratar a realidade na ficção seria preciso analisar uma mente comum num dia comum e registrar os átomos que caem na mente na ordem que eles caem.



Mais de 40 anos depois do início dessa revolução literária em termos de procedimentos narrativos, Alain Resnais se debruçou sobre as mesmas questões no audiovisual. O diretor considerava o cinema uma tentativa, ainda que primitiva, de abordar a complexidade dos mecanismos do pensamento humano. Apostava, contudo, que seus experimentos eram só um primeiro passo em relação ao que poderia ser conquistado no futuro. (CALLEV, 1997, p.31).



Tendo isso em vista, a presente pesquisa busca pensar uma aproximação dos trabalhos desses dois artistas a partir de uma análise comparativa do filme Je t’aime, Je t’aime, lançado por Resnais em 1968, e do romance To the Lighthouse, publicado por Woolf em 1927. O objetivo é descrever e examinar os mecanismos que ambos articulam em suas obras para a apresentação das características da vida mental de seus personagens no cinema e na literatura. Ao contrário da multiplicidade de lembranças que caracteriza outros filmes de Resnais e romances de Woolf, as narrativas aqui investigadas se sustentam pela busca de um período específico do passado.



O que investigamos, portanto, não é a questão da memória e do tempo em Resnais, assunto já abordado por diversos teóricos. Além de Deleuze, destacamos Benayoun (2008) e Callev (1997). Também não se trata de um estudo sobre a estruturação do fluxo de consciência em Virginia Woolf, tema já debatido por Robert Rumphrey (1976), James Wood (2010), Paul Ricoeur (1995) e tantos outros. Sem deixar de levar em consideração essa fortuna crítica, o que propomos aqui é pensar uma confluência entre cinema e literatura não fundada na imitação ou na transposição entre linguagens de uma mesma história. Mas apostar no diálogo entre dois autores que não necessariamente conversam pelo caminho das intertextualidades, mas pela sobrevivência das formas e dos temas na história das artes (DIDI-HUBERMAN, 2013)
Bibliografia

BENAYOUN, Robert. Alain Resnais, arpenteur de l’imaginaire. Paris: Éditions Ramsay/Vilo, 2008.



Callev, Haim. The Stream of Consciousness in the Films of Alain Resnais. New York: McGruer P, 1997



DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo: cinema II. Tradução Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2005.



DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempos dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.



HUMPHREY, Robert. O Fluxo da Consciência. Tradução de Gert Meyer. São Paulo: Editora McGraw-Hill do Brasil, 1976.



RICOEUR, Paul. Entre o tempo mortal e o tempo monumental: Mrs. Dalloway. In: Tempo e Narrativa Tomo II. Campinas: Papirus Editora, 1995



WOOD, James. Virginia Woolf’s Mysticism. In The Broken Estate. New York: Picador, 2010.



WOOLF, Virginia. Ficção Moderna. In: O valor do riso e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2014.



________________. To The Lighthouse. London: Wordsworth Classics, 1994.