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  Título
A experiência de duração que atravessa e aproxima a pintura do cinema
Autor
Raquel Assunção Oliveira
Resumo Expandido
Percebo que, assim como o cinema pode trazer em si uma experiência de duração que se aproxima da pictórica (como fica evidente na encenação de tableaux-vivants e do uso da câmera fixa e demorada no registro de cenas de movimentos quase inexistentes de tão poucos e sutis), determinadas pinturas possuem a força de carregar um tempo que é fílmico, especialmente por meio de composições imagéticas que valorizam o fora de quadro e o movimento, como já é tão comum acontecer no cinema, vide o conceito de força centrífuga associado ao cinema por Bazin (1991). Tendo isso em conta, busco menos a ontologia ou a especificidade de cada meio e mais a convergência e o hibridismo, percebendo o que de novo surge na nossa experiência estética a partir da aproximação entre formatos distintos.



No entendimento deste trabalho o desenvolvimento que Bergson e seus comentadores, dentre os quais destaco Deleuze, realizam do conceito de duração, representado por ele na forma de um cone, é de grande valia. Em linhas gerais, se é que possamos colocar desse modo, a duração diz respeito a uma coexistência virtual – ou seja, daquilo que não é atual, não está no agora, mas que tem uma realidade na nossa mente – do passado e do presente, sendo o presente o momento de maior contração das memórias/lembranças, estas sempre passíveis de serem atualizadas no presente: lugar em que percepção e memória coexistem, lugar da vida.



Pensando dessa forma, durar é um mergulhar no tempo. É tempo subjetivo/kairós - e não cronológico/chronos. Para Bergson, assim como para Deleuze, o tempo é por excelência descontínuo, como um rizoma que nunca leva ao mesmo ponto. É um segundo desmembrado em infinitos instantes, alargando-o ou contraindo-o. É o entrar num mundo onde os ponteiros do relógio nada representam. E é precisamente nesse tempo não-cronológico que mora a experiência, “uma mistura de memórias pessoais, memórias compartilhadas e imaginação” (SUTTON, 2009, pg. 35).



Nas pinturas de Hopper fica evidente que, em vez da busca pelo instante pregnante, marcado pelo desejo de condensar todo um fluxo de acontecimentos em uma só imagem, o que vemos é o registro de cenas corriqueiras e o “congelamento” de movimentos em curso. Em Hopper, a pintura deixa de se ater apenas ao presente da cena retratada para tornar sensível a potência que o pictórico também tem de fazer durar este mesmo presente. De, a partir de cenas banais e corriqueiras, tornar simultâneos passado, presente e futuro.



Aprofundando-se nessas definições filosóficas e mobilizando-as para os processos artísticos e comunicativos, Philippe Dubois coloca, fazendo dialogar cinema e fotografia: “Hoje, o movimento não se opõe mais radicalmente à parada como se fossem dois mundos contraditórios. O instante não é mais contrário da duração, nem o movimento a negação da imobilidade. (...) O instante como uma forma de duração.” (DUBOIS, 2016, p. 21).



Essa passagem nos ajuda a elucidar o ponto-chave este trabalho. Nas produções artísticas de um modo geral, e não apenas na fotografia, as hibridizações e contaminações que existem entre as diferentes formas de arte nos mostraram que não é coerente dividirmos as diferentes expressões artísticas em territórios delimitados, considerando a duração um aspecto trabalhado apenas pelo cinema ou pelo teatro e a negação de movimento apenas à fotografia ou à pintura, por exemplo. Dos trabalhos fotográficos de Edward Muybridge e de Étienne-Jules Marey às dinâmicas da pintura futurista de artistas como Umberto Boccioni e Giacomo Balla a história das artes tidas como “fixas” sempre alcançaram territórios móveis e indefinidos que a aproximaram de uma duração cinematográfica.



Em quadros como os de Hopper é como se a experiência de duração que a pintura proporciona se aproximasse daquela que vivemos com o cinema: uma experiência consciente de um passado, presente e futuro que fluem e que não se deixam esgotar mesmo estando fora da lógica do movimento audiovisual, e sim contraídos num só instante.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. O olho interminável: cinema e pintura. São Paulo: Cosac & Naif, 2011.



BAZIN, André. O cinema: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.



BLOCK, Lawrence (org.). In sunlight or in shadow: stories inspired by the paintings of Edward Hopper. Nova Iorque: Pegasus Book Ltd., 2016.



DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 2012.



DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.



DUBOIS, Philippe. A matéria tempo e seus paradoxos perceptivos na obra de David Claerbout. In: FATORELLI, Antonio (org.). Fotografia contemporânea: desafios e tendências. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.



GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro, Contraponto e Editora PUC-Rio, 2010.



GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.



SUTTON, Damian. Photography, cinema, memory: the crystal image of time. Minnesota Press, 2009.