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  Título
Documentário rondoniense: filmes, realizadores e contextos de produção
Autor
Juliano José de Araújo
Resumo Expandido
A Amazônia é um dos lugares mais documentados do Brasil. Entretanto, a diversidade da região nem sempre é bem representada no campo do audiovisual, acabando por reiterar clichês de longa data. Isso ocorre pois o olhar que captura essas imagens tem sido, de um ponto de vista histórico, mais um olhar de realizadores de fora do que dos sujeitos locais.

O indígena “selvagem” e a ideia de um território exótico a ser desbravado são, como indica José Arbex Júnior (2005), duas figuras fortes no processo de construção imaginária sobre a Amazônia. Trata-se de um processo elaborado pelos portugueses no período da colonização, desde a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, e que se perpetuou no decorrer dos séculos seguintes.

Se os estereótipos sobre a representação da Amazônia foram inicialmente disseminados através de textos escritos, como crônicas e relatos de viagens, gradativamente, outros suportes foram sendo incorporados, como as artes plásticas. Com o surgimento da fotografia e posteriormente do cinema, esses meios também foram intensamente empregados para a disseminação dessas representações.

Um exemplo é a rica produção visual que a Comissão Rondon produziu nas primeiras décadas do século XX. São 1515 imagens que foram publicadas, em 1946, 1953 e 1956, nos três volumes do livro Índios do Brasil, organizados por Rondon, e 12 filmes documentários realizados pelo Major Thomaz Reis, o cinegrafista oficial da Comissão, entre 1917 e 1938. Esse material faz a construção de uma imagem do índio a partir de três categorias: o índio como selvagem, o índio como pacificado e o índio como aculturado/integrado. (TACCA, 2001, p. 17).

Julgamos importante citar, nessa perspectiva, o estudo que faz Tunico Amâncio (2000) no livro O Brasil dos gringos: imagens no cinema, o qual se debruça sobre o modo como o Brasil é concebido no exterior, a partir de um conjunto de filmes produzidos na Europa e nos Estados Unidos. O resultado é que o Brasil é sempre retratado de maneira estereotipada. No caso da Amazônia, esse processo de exotização é intensificado ainda mais. Segundo o autor: “No interior dos discursos que os filmes revelam, entretanto, permanece uma visão conservadora do tratamento da Amazônia, de seus habitantes e de seus problemas.” (AMÂNCIO, 2000, p. 89).

Nesse contexto, esta comunicação parte de uma pesquisa em fase inicial sobre a produção audiovisual de não-ficção da Amazônia Ocidental, especificamente dos realizadores de Rondônia, nascidos ou radicados no Estado. Nosso recorte compreende 42 documentários (curtas e médias-metragens) feitos a partir de 1997, período marcado pela retomada do cinema nacional e pelo lançamento do longa-metragem O cineasta da selva, do amazonense Aurélio Michiles, que recebeu diversos prêmios e, de certa forma, deu grande visibilidade à produção da região amazônica.

São filmes documentários dos realizadores Alexis Bastos, Beto Bertagna, Carlos Levy, o casal Fernanda Kopanakis e Jurandir Costa, Joesér Alvarez e Simone Norberto. Trata-se, em nossa opinião, de um conjunto de realizadores representativo, tendo em vista que possuem uma produção significativa em Rondônia e revelam, de certa forma, uma atuação constante no campo do audiovisual no período delimitado para a pesquisa.

Temos como questões norteadoras: Quais são os procedimentos de criação, os métodos de trabalho e as condições de realização dos documentários produzidos em Rondônia? E as influências estéticas desses filmes, tendo em vista as diferentes tradições documentárias? O que nos dizem esses documentários e quais assuntos priorizam em suas narrativas?

Apresentaremos nesta comunicação um panorama dos filmes que constituem nosso corpus, as trajetórias dos realizadores e os contextos de produção com a proposta de fazer uma reflexão sobre algumas das linhas de força do documentário rondoniense. Acreditamos que poderemos compreender as peculiaridades dessa produção que se faz “fora do eixo” dos grandes centros, como Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Bibliografia

AMANCIO, Tunico. O Brasil dos gringos: imagens no cinema. Niterói: Intertexto, 2000.

ARBEX JÚNIOR, José. “‘Terra sem povo’, crime sem castigo. Pouco ou nada sabemos de concreto sobre a Amazônia”. In: TORRES, Maurício (Org.). Amazônia revelada: os descaminhos ao longo da BR-163. Brasília: CNPq, 2005.

AUMONT, Jacques e MARIE, Michel. A análise do filme. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2009.

FREIRE, Marcius. Documentário: ética, estética e formas de representação. São Paulo: Annablume, 2011.

GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. 2ª ed. Manaus: Valer, 2007.

HOLANDA, Karla. Documentário nordestino: mapeamento, história e análise. São Paulo: Annablume, 2008.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. 6ª ed. Campinas: Papirus, 2016.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é mesmo documentário? São Paulo: Senac, 2008.

SHOHAT, Ella e STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

TACCA, Fernando de. A imagética da Comissão Rondon. Campinas, SP: Papirus, 2001.