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  Título
Experimentalismo sonoro no cinema latino-americano
Autor
Damyler Ferreira Cunha
Resumo Expandido
O que é experimentalismo sonoro no cinema? Quais as relações existentes entre cinema experimental e música experimental? O que caracteriza o conceito experimental no domínio do cinema? E na música, o que poderia ser definido como experimentalismo sonoro?



Neste artigo me debruço sobre tais perguntas com o objetivo de propor a análise de três obras que tentaram trazer para o primeiro plano da cena audiovisual latino-americana uma experiência acústica que apontava em direção à organização dos ruídos do mundo em som musical. Nessa perspectiva, a delimitação fundamental deste projeto também diz respeito aos elementos que constituem a elaboração da experiência dos objetos analisados. Acerca dos filmes do cineasta brasileiro Glauber Rocha em Pátio (curta-metragem 1957-59), do cubano Enrique Piñeda Barnet em Cosmorama (curta-metragem 1964) e do cineasta argentino Hugo Santiago em Invasión (longa-metragem, 1969), busca-se a compreensão sobre como estes artistas elaboraram e provocaram experiências nestas obras ditas “experimentais”. E qual a importância que a experimentação acústica, sonora, teve na construção dessas experiências?

Do ponto de vista histórico, após a efervescência de uma primeira fase do cinema experimental que emergiu dos movimentos artísticos do entre-guerras na Europa (BONET, 1994), na virada dos anos 1950 para 1960, estes três filmes foram elegidos pelos críticos de seus próprios países como obras pioneiras do experimentalismo em suas cinematografias. Distintos à sua maneira, apontavam numa direção oposta as concepções vigentes e dominantes da cinematografia de seus países e não exatamente descendiam de um “cinema de vanguarda” como gênero em si mesmo. No Brasil, em 1957, o jovem crítico Glauber Rocha se interessava pela ideia de um “cinema puro e integral” aprofundando as bases teóricas daquilo que compreendia como “específico cinematográfico” (ROCHA, 1958). Não por acaso, em seu primeiro filme Pátio (35mm), o cineasta se distancia de uma tradição narrativo-representativa, investindo naquilo que estaria mais próximo a uma vocação plástico-rítmica do cinema. Preocupado com questões plásticas, formais, de tempo, movimento e ritmo, o jovem Glauber se aproxima da música experimental para buscar realizar aquilo que denomina ser uma “montagem sonora” para seu filme. Em Cuba, anos mais tarde, em 1964, a aparição do curta-metragem Cosmorama: poema espacial n.1 (16mm) é quase fantasmagórica. Exibido em 1966, no Museu Nacional de Bellas Artes de Cuba e esquecido durante muito tempo, o curta-metragem financiado pelo ICAIC foi dirigido pelo cineasta cubano Enrique Piñeda Barnet, que se aproxima do artista plástico concretista Sandú Darié para fazer um filme sobre suas esculturas cinéticas de movimento. Em busca daquilo que nomeará como a criação de uma “atmosfera”, Enrique Piñeda busca com o músico eletroacústico cubano Carlos Fariñas a criação de uma trilha sonora para o filme a partir do uso do trecho da música Symphonie pour une homme seul, a mesma composição (escolhem movimentos distintos) que Glauber Rocha escolherá para realizar Pátio. Na Argentina, a relação entre músicos experimentais, cineastas e artistas plásticos será menos permeada pelo movimento concretista e o primeiro filme que se destacará nesta cinematografia pelo uso de sons eletroacústicos na criação da trilha sonora será Invasión (35mm). Dirigido pelo cineasta Hugo Santiago e com roteiro de Adolfo Bioy Cassares e Jorge Luis Borges, esse longa-metragem se mantém mais próximo a uma tradição narrativo-representativa, ao contrário dos dois exemplos anteriores. Apesar de não usar trecho de nenhuma música experimental previamente existente, Invasión amplifica as relações com a música experimental no cinema latinoamericano ao ser o primeiro filme latino que tem sua trilha sonora produzida integralmente num laboratório de música eletronica, no caso o Laboratório de Música Electrónica del CLAEM, importante centro de música do Instituto Torcuato di Tella.
Bibliografia

Barnet, Enrique Piñeda. “Cosmorama, la arquitectura de una obra maestra”, entrevista publicada no Diário de La Juventud Cubana em 01/12/2009.



Bonet, Eugeni. Cinema experimental. Espanha (Catalunha), 1994.



“Entrevistas con diretores largometraje, escritores y músicos”. Revista Cine Cubano (ano 4), números 23,24 e 25, primeiro semestre 1964, p.110-128.



Fenerich, Alexandre S. “A Inscrição da Intimidade na Symphonie pour un Homme Seul”, tese de doutorado defendida em 2012 no PPGMUS – ECA/USP.



Labaki, Luiz Felipe. “Ouvir O Pátio”, crítica publicada na Revista de Música Eletroacústica Linda, ano 2, oitava edição, 2015.



Rocha, Glauber. “De cinestética”, Revista Ângulos, Salvador, julho,1958, n.13, v.8.

___________. “Filme experimental: um tempo fora do tempo”. Revista Mapa, Salvador, maio,1959.



Teixeira, Francisco Elinaldo. "Formas e metamorfoses do cinema experimental". In.: VIII Estudos de Cinema e Audiovisual Socine. São Paulo: Socine, 2012.