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  Título
A relação da mise en scène e rostocopia nos filmes Waking Life e Tower
Autor
João Paulo Feitoza Clementino Palitot
Resumo Expandido
A mise en scène é para o cinema e teatro a força pujante da atuação, mas como assinalam os autores Bordwell (2013) e Aumont (2008), não é apenas a atuação a força motriz da categoria. Podemos somar à encenação toda concepção de figurino, cenário, luz e também a posição e movimentação da câmera, uma vez que concordamos com David Bordwell e Kristin Thompson (2013) quando afirmam que a “mise-en-scène inclui os aspectos do cinema que coincidem com a arte do teatro: cenário, iluminação, figurino e comportamento das personagens. No controle da mise en scène, o diretor encena o evento para a câmera” (BORDWELL; THOMPSON, 2013, p. 205). A câmera então assume esse papel de enquadrar o espaço fílmico, seja ele real ou fictício. Perceber, por exemplo, a mise en scène nos filmes produzidos por cineastas como Ingmar Bergman e David Lynch, nos respectivos filmes Fanny & Alexander e Blue Velvet, é um aprendizado ímpar para qualquer estudante ou aficionado por cinema.

Durante a espectação de filmes que usam a técnica da rotoscopia (adição de traços e cor no material filmado seja ele em película ou vídeo digital, gerando uma animação no seu produto final), nos questionamos se esta interferência artística trata-se de uma soma ou uma reencenação da mise en scène, no que toca à encenação e posição dos atores em cena. Para exemplificar a observação tomemos como base a animação Branca de Neve e os sete anões, do estúdio Walt Disney, onde filmou-se o movimento de uma atriz real e, após revelado o filme foram delineados seus movimentos e modificado o rosto da atriz real pelo desenho da personagem Branca de Neve.

Os filmes Waking Life, do diretor Richard Linklater, e o documentário Tower, do diretor Keith Maitland, pertencem a esse universo em que a rotoscopia assume diretamente um ponto importante na mise en scène dos filmes, já que foram gravados com atores reais e animados posteriormente através de computação gráfica. Nesse universo rotoscopiado, os objetos de cena podem ser criados e/ou manipulados digitalmente, sendo posteriormente adicionados no filme durante a pós-produção. Para exemplificar podemos citar o filme Waking Life em que o corpo e as feições do ator protagonista - componentes essenciais para a encenação – são manipulados digitalmente, bem como também notamos alterações no segundo plano da imagem, em que uma parede move-se constantemente, causando certa confusão ao espectador. Ainda no referido filme, os olhos do ator protagonista são aumentados, deixando-o com um aspecto não humano. Estas escolhas geram uma liberdade de construção do cenário e dos atores em que o material finalizado não necessariamente corresponde à maneira que foi captado. Já no filme Tower, que aborda um acontecimento trágico real, ocorre o inverso. O diretor afirmou em entrevista que gostaria de provocar maior sensação de realidade espacial ao espectador, porém como não foi possível filmar no local em que ocorreu o fato, este optou gravar grande parte do filme no fundo do quintal de sua casa e através do uso da rotoscopia tornou-se possível a criação de um universo similar ao real. Para tal, o diretor utilizou mapas do local real da época e repassou para seu computador deixando o espectador com uma sensação que o espaço fílmico coincidia com o espaço real do acontecimento.

Nessa perspectiva pretendemos refletir sobre o trabalho com a mise en scène ao analisar obras que incluem uma adição ou uma tentativa de ampliação do conjunto da encenação através do efeito da rotoscopia.Tomando por base as formulações de Jacques Aumont, David Bordwell, Kristin Thompson e Luiz Carlos Oliveira Jr em seus livros sobre o tema da mise en scène e aprofundando na temática também da imagem câmera de Fernão Pessoa Ramos (2012), buscaremos identificar como a força motriz da encenação, aliada ao uso da rotoscopia, cria uma obra independente da imagem gravada pela câmera e suas respectivas perdas e ganhos.
Bibliografia

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Análise do filme. Trad: Marcelo Felix São Paulo: Texto & Grafia, 2010.

AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Tradução: Pedro Elói Duarte. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Tradução: Marina Appenzeller. São Paulo: Papirus, 2004.

BAZIN, André. O cinema – ensaios. Tradução: Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1991.

BETTON, Gerard. Estética do cinema. Tradução: Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A arte do cinema: uma introdução. Tradução: Luís Carlos Borges. São Paulo: Unicamp, 2013.

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: A encenação no cinema. Tradução: Maria Luiza Machado Jatobá. Campinas, SP: Papirus, 2008.

OLIVEIRA Junior, Luiz Carlos. A mise-en-scène no cinema: Do clássico ao cinema de fluxo. Campinas, SP: Papirus, 2013.

MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Tradução: Lauro Antonio e Maria Eduarda Colares. São Paulo: Dinalivros, 2001.