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  Título
O ato da fala como gerador da violência em filmes brasileiros
Autor
debora regina opolski
Resumo Expandido
Os longa metragens ficcionais sobre tráfico de drogas deslocam a atenção dos espectadores e críticos para os efeitos visuais e sonoros, por se tratarem de narrativas que favorecem a ênfase destes efeitos. No entanto, o diálogo, compreendido como elemento verbal e sonoro, também deveria ser destacado, porque a performance vocal do personagem é um elemento estético estruturante nestes filmes.

Para Kozloff (2000, p. 202) filmes de gângster “são aqueles centrados nas atividades de criminosos, que trabalham em grupos organizados para obter dinheiro e poder, geralmente em localidades urbanas”. Essa definição pode ser aplicada aos filmes brasileiros que possuem temática que versa sobre o tráfico de drogas, nos quais o foco é o trafico e/ou as organizações que se formam paralelamente a esse movimento, as quais, da mesma forma, objetivam alcançar dinheiro e poder.

De acordo com Burke (1993) a linguagem define barreiras simbólicas entre grupos sociais. Os sotaques e dialetos talvez sejam os exemplos mais óbvios, mas as variações de linguagem são baseadas em outras diversas características, como “profissão, gênero, religião, entre outros setores” (BURKE, 1993, p. 09). Segundo Kozloff (2000, p. 202), o filme de gângster “abraça a linguagem diferenciada, glorifica essa linguagem e a usa como meio para “criar uma barreira simbólica” entre essas histórias e o resto do cinema”. Os filmes em questão usam a linguagem como uma forma de diferenciação, ao passo que retratam o modo de vida e de trabalho próprio de cada organização através da linguagem. Fazem isso não somente pelo tipo de linguagem utilizada, mas também pelo modo de falar, pela “falta de educação ou refinamento verbal” (KOZLOFF, 2000, p. 207) e pelo uso de palavrões, utilizando a “obscenidade como uma ferramenta poderosa” (KOZLOFF, 2000, p. 208) em falas marcada por informalidade e improviso.

Utilizando-se da verborragia, as palavras são sinônimos de força pois o que os personagens “deixam a desejar em refinamento e educação verbal, eles compensam em poder verbal brutal, a forma como eles falam, em vez de ser um integrador social e um meio de partilhar informações, é para eles outra arma contra os inimigos” (KOZLOFF, 2000, p. 207). A verborragia se manifesta com o uso de palavrões que é associado à falta de vocabulário e ao extravasamento de sentimentos por via da comunicação verbal. As frases são pronunciadas com o intuito de explicitar a violência, em forma de atos da fala (AUSTIN, 1962). Para Austin (1962), o ato de dizer algo é também o ato de fazer algo, o que significa que uma frase emitida tem o poder da ação, modificando a realidade em que ela é pronunciada. No caso do audiovisual, a teoria dos atos da fala adiciona o elemento da ação ao conceito de verbocentrismo (CHION, 1994), porque a palavra pode ser transformada em um evento cênico. Isso não significa que a violência representada através da imagem não seja relevante. Porém, tratando-se de um gênero verborrágico, os diálogos são, em grande maioria, os elementos causadores dos momentos clímax dos filmes, que são os momentos que geram mais violência.

Todas as características que Kozloff (2000) atribui aos filmes de gângster podem ser conferidas aos filmes brasileiros que possuem como temática o tráfico de drogas.

Sendo assim, esta comunicação pretende apresentar os filmes brasileiros contemporâneos de ficção comercial, que possuem como temática o tráfico de drogas, como produções que utilizam uma linguagem peculiar que as diferencia de outras produções; que são verborrágicas; que apresentam falta de refinamento verbal; que utilizam de obscenidade verbal e, que, por fim, manifestam a violência através da linguagem e dos diálogos dos personagens, que são permeados por atos de fala.
Bibliografia

AUSTIN, John L. How to do things with words. Londres: Oxford University Press, 1962.

BURKE, Peter. The art of conversation. New York: Cornell University Press, 1993.

CHION, Michel. Audio-vision. New York: Columbia University Press, 1994.

CHION, Michel. The voice in cinema. New York: Columbia University Press, 1999.

KOZLOFF, Sarah. Overhearing Film Dialogue. Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2000.