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  Título
Masculinidades, raça e religiosidade popular em "O amuleto de Ogum"
Autor
Maria Neli Costa Neves
Resumo Expandido
No cinema de Nelson Pereira dos Santos é frequente a encenação de histórias com temas relacionados à raça, à mestiçagem, à marginalidade social. No caso do filme "O amuleto de Ogum" (1974), que se desenrola em torno das guerras da bandidagem na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense durante a década de 70, esses aspectos estão presentes e se somam às manifestações da religiosidade umbandista que, segundo Robert Stam, pode ser chamada de "a religião brasileira, por incorporar elementos culturais dos principais grupos constitutivos do Brasil": do catolicismo, da cultura africana, do espiritismo kardecista e da "simbologia indígena" ( Stam, 2014, p. 298).

Os negros pobres, os indígenas, os mestiços, ou seja, os "sub-representados e os marginalizados" (Stam, 2014, p.298) são trazidos para o centro da diegese, e ali eles se fazem ver com a complexidade de "sujeitos" (ibid) integrando o universo ficcional.

Em meio a disputas de quadrilhas e de assassinatos, se evidencia a conduta de um jovem, o protagonista da história, que embora tenha tido na meninice o corpo fechado e protegido pela religião umbandista, é iniciado no crime organizado e internaliza as formas masculinas agressivas e homofóbicas determinadas pelo seu bando e pelo contexto de violência. Segundo Teresa de Lauretis, o “gênero” retrata “não o indivíduo e sim uma […] relação social” e é classificado “de acordo com valores e hierarquias sociais” (Lauretis, 1987, passim, p. 210/211). É somente após ser salvo da morte por umbandistas e ter recuperado os princípios adquiridos na infância, que o jovem protagonista ganha forças para se afastar da criminalidade.

Para essa comunicação, com fundamentos em Robert Stam, Tereza de Lauretis, Judith Butler e Renato Ortiz, tenciono fazer reflexões sobre esses pontos que se interligam no filme, como as formas de masculinidades performadas pelos integrantes da gangue, e a representação de raça, também imbricada às questões religiosas e identitárias. Conforme Robert Stam: "A raça é atravessada pela classe, o gênero é atravessado pela raça" (Stam, 2014, p. 295). Com base nos autores mencionados, é legítimo formular que a validação da raça pode albergar a validação da alteridade, assim como a descoberta da religiosidade "popular" abarca a compreensão de se entender como um ser humano com raízes a serem resgatadas e defendidas.
Bibliografia

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BUTLER, Judith P. Bodies that matter: on the discursive limits of "sex". New York:

Routledge, 1993.

GATTI, José; PENTEADO, Fernando Marques (Org). Masculinidades: Teoria, crítica e artes. SP: Estação das Letras. 2011.

LAURETIS, Teresa. A tecnologia do gênero.

disponível em: https://www.academia.edu/4810591/_A-Tecnologia-do-Genero

Teresa-de-Lauretis

Março, 2017.

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus Editora, 2014.

_____. Multiculturalismo Tropical. São Paulo: EDUSP, 2008.

VILLARES, Lúcia. Dois corpos Torturados. In GATTi, José; PENTEADO, Fernando Marques (Org). Masculinidades: Teoria, crítica e artes. SP: Estação das Letras. 2011.