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  Título
A extenuação das certezas: primeira pessoa e política em Nanni Moretti
Autor
Gabriela Kvacek Betella
Resumo Expandido
Na pesquisa em andamento, discutimos o caráter autobiográfico no cinema de Nanni Moretti (1953-), cuja obra vem sendo tratada em termos de autobiografia, autoficção e metacinema. Privilegiamos a análise do posto de narrador em Caro diario, considerando o ensaio pessoal, o diário, o diário de viagem, as memórias e o romance autobiográfico como seus pares literários. Ao investigar o rompimento com as pretensões de objetividade “realista”, “neutra” e a preferência pelo ponto de vista narcísico, vimos que dele partem reflexões políticas e éticas, por sua vez colocadas com legitimidade. Noutras palavras, o discurso de si serve a Moretti para refletir o sujeito, seu meio político e o cinema. Investigamos a postura e o alcance da autoexposição como mecanismo estético, crítico e autocrítico a partir da unidade promovida pela criação do personagem Michele Apicella, tido como alter ego do diretor, e seus diversos perfis em alguns dos primeiros longas. Concluímos que, ao desafiar a estabilidade dos gêneros e interferir na hibridização dos mesmos, Moretti apostou em filmes que se afirmaram como autobiográficos, contudo, manteve-se voltado para o diálogo com a crítica política mais aguda, em momentos decisivos do contexto italiano.

Transposto o espaço ocupado pelo refluxo ideológico da geração pós-68, Moretti conseguiu explorar esse inconsciente marcando sua filmografia com o domínio de uma intuição dos ânimos sobre uma nova forma, seguido de uma exposição de convicções, como acontece em Caro diario, no viés da comédia, e em Aprile, quando o protagonista Nanni Moretti está preparando um filme, um ano e meio depois das eleições de 1994 e da queda do governo de direita. Há neste filme construções cênicas bastante proveitosas para a análise de “aparentes contradições” causadas pela combinação da voz, da câmera subjetiva e do personagem (ou “narrador narrado”), de modo a questionar as aproximações à figura de um narrador à maneira convencional da literatura. Ao lado disso, a poética morettiana evolui para a abdicação do ato de falar pelo outro, abrindo espaço para que este fale em primeira pessoa, referindo-se não a si, mas ao diretor.

Num terceiro passo, analisamos as relações estabelecidas pelos filmes que percebem seu tempo e espaço sem sentimentalismos, na medida da atualidade e com aportes ao processo criativo. Assim, distinguimos parentescos temático-formais entre Io sono un autarchico e Ecce bombo, entre Aprile e Il caimano, entre La stanza del figlio e Mia madre, para citar apenas alguns exemplos, com o acerto de escolher categorias contemporâneas como os impasses da juventude no enfrentamento dos problemas de geração, o empenho político contra as forças de direita berlusconista e as interrogações que envolvem as esquerdas. Nesse sentido, pode-se dizer que a história sociopolítica da Itália dos últimos quarenta anos é debatida na filmografia de Moretti sem frustração, porém até o esgotamento, enquanto, em muitas ocasiões, o cinema se afastou dessa função. Ao longo da trajetória, notamos a busca pela instância narrativa ideal para o sentimento de inadequação que permeia a obra de Moretti, à luz do sentimento autobiográfico que permanece presente, mesmo quando os filmes se afastam de tal caráter.
Bibliografia

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