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  Título
Brás Cubas e Dom Casmurro: a adaptação da narrativa autoconsciente e não-confiável
Autor
Carolina Soares Pires
Resumo Expandido
A proposta de estudo que ora se apresenta inscreve-se no campo de investigação da adaptação da literatura para o audiovisual e, por conseguinte, do modo como se relacionam o cinema e a televisão com a literatura, por meio da análise de adaptações cinematográficas e televisivas, tendo como objetivo explorar os aspectos narrativos da adaptação audiovisual, especialmente as questões específicas da narrativa autoconsciente e não-confiável. Para tanto, serão abordadas as inter-relações entre obras audiovisuais adaptadas para cinema e para televisão desses dois textos literários cujas narrativas podem ser classificadas como autoconscientes e não-confiáveis. Serão observados os elementos constitutivos e os processos de construção narrativa dessas adaptações, as influências e as interfaces dessas obras, assim como outras relações intertextuais relevantes para a análise. Através da análise fílmica e do estudo comparativo, pretende-se investigar o percurso da construção narrativa no processo de adaptação e as implicações desse processo na obra resultante.

A pesquisa abrange as adaptações para o cinema e para a televisão de dois textos: os romances Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1889), de Machado de Assis. Serão analisados o filme Capitu (1968), de Paulo César Saraceni, a minissérie Capitu (2008), da Rede Globo, dirigida por Luiz Fernando Carvalho; assim como os filmes Brás Cubas (1985), de Júlio Bressane e Memórias póstumas (2001), de André Klotzel. Tomando por hipótese que a construção narrativa dessas adaptações é influenciada pela forma, o objetivo será compreender como se dá essa relação no âmbito da narrativa autoconsciente e não-confiável, identificar particularidades da interlocução dos textos com essas adaptações e analisar a construção narrativa dessas adaptações audiovisuais. Quatro critérios sustentam a escolha dessas obras audiovisuais:

• Narrativo: A narrativa dos dois romances é notadamente autoconsciente: trata-se, em ambas as obras, de relatos mediados pela própria personagem, cuja confiabilidade é questionável. Essa mediação é revelada para o leitor implícito através da ironia e da construção narrativa que desautoriza o discurso dessas personagens e deixa ver que existe um processo de autofalsificação (Passos, 2007) orquestrado pelo narrador-personagem.

• Temático: há interfaces e convergências nos temas tratados nos dois romances de Machado de Assis, centrados na crítica aguda às relações sociais e sua hipocrisia, especialmente no que concerne ao casamento, ao adultério e ao colapso da ordem paternalista, tratados com acidez e ironia.

• Comparativo/estético: Dadas as semelhanças narrativas dos dois textos de origem, o cotejo das obras possibilita uma análise mais aprofundada e profícua das adaptações, que possuem estéticas e estilos diversos e constroem relações diferentes com os textos de origem.

• Ineditismo da abordagem: não há pesquisas no campo audiovisual que abarquem e comparem as adaptações dos dois romances mais importantes de Machado de Assis.



Se é possível traçar um paralelo entre os dois romances, em que medida essa possibilidade se manifesta no caso dessas adaptações?

Estabelecem-se como questões centrais na pesquisa: como são construídas e estruturadas narrativamente as adaptações de narrativas autoconscientes e não-confiáveis, mais especificamente, das adaptações de Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas ? Quais as relações entre texto de origem e obra audiovisual? Que princípios guiaram as escolhas narrativas nessas adaptações? As características de narrativa autoconsciente e não-confiável foram contempladas/potencializadas/valorizadas na adaptação para o audiovisual ou foram elididas dela? Por quê? É possível reproduzir a relação entre narrador e leitor na relação entre adaptação audiovisual e espectador? Como? Como se dá a relação entre obra e espectador nessas adaptações? Como essas adaptações se relacionam entre si?
Bibliografia

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BUTLER, Jeremy G. Television Style. Nova York e Londres: Routledge, 2010.

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CHATMAN, Seymour. Story and discourse: narrative structure in fiction and film. Ithaca, NY: Cornell U.P., 1978.

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JOHNSON, Randal. Literatura e cinema. Macunaíma: do modernismo na literatura ao cinema novo. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982.

PASSOS, José Luiz. Machado de Assis: O romance com pessoas. São Paulo: EDUSP, Nankin, 2007.

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STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

______. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade.