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  Título
A narrativa do outro e a ética da mediação em “Fuocoammare”
Autor
José Augusto Mendes Lobato
Resumo Expandido
Dentro da tradição estabelecida nos estudos culturais e nas ciências da linguagem, a perspectiva do outro como categoria de recorte e demarcação do visível emerge como princípio fundante para a análise de produtos midiáticos. Tomando a alteridade como um oposto-complementar da identidade – esta, desenhada “na tradição de continuidade” de origens que são apresentadas “como um ponto intemporal e intrínseco, encravado na própria natureza das coisas (ou das pessoas)” (GOMES, 2008, p.153) –, consideramos as narrativas de alteridade como formatos transversais, propondo a experiência mediada do outro a partir de estratégias discursivas em diversos gêneros.

Partindo de tal pressuposto, este trabalho lança luz sobre a mediação proposta na narrativa de “Fuocoammare” (Itália, 2016, dir.: Gianfranco Rosi). Centrado nos impactos da onda recorde de refugiados do Oriente Médio e da África, o documentário é ambientado na ilha de Lampedusa e adota a perspectiva de um pré-adolescente para tratar da crise humanitária e de seus efeitos sobre os territórios do Mediterrâneo.

A narrativa, dotada de forte ênfase testemunhal, alude ao embate entre identidade e alteridade fundado na construção de polos opositivos, em uma modalização sensível de realismo que se propõe “sintoma de uma época pautada pelo desajuste, pelo transbordamento e pelo conflito” (SOARES, 2015, p.219), tratando de questões geopolíticas a partir de leituras humanizadas. Outro aspecto relevante é o esforço de formação de “contra-narrativas” (BHABHA, 1998), capazes de indicar cisões internas na representação dos povos árabes e norte-africanos. Tal ideia, por sua vez, evoca uma busca de complexidade – algo conservado, em especial, no regime das imagens, postas como um tipo de interface rumo ao outro – e uma “ética da mediação”, nos termos de Roger Silverstone (2002), com interações entre o eu/nós feitas fundadas em uma “distância apropriada”.

Na análise, buscamos compreender que modo é construída a tensão entre o próximo e o distante – essencialmente por meio de Samuele, 12 anos, um dos cinco mil habitantes da ilha italiana, e por oficiais encarregados do resgate de embarcações. Outro foco está nos usos complexos da imagem, em suas características de multiplicidade, entre-captura e estrutura dissipativa (CATALÀ, 2005), combinando a retórica testemunhal à diversidade dos modos de narrar.

Entre os autores adotados estão H. Bhabha (1998), S. Hall (2001), R. Silverstone (2002), J. M. Català (2005) e a leitura de R. Soares (2015) sobre os novos realismos audiovisuais, os aportes de M. Gomes (2008) e K. Woodward (2000) a respeito dos processos de identificação e a perspectiva de H. Foster (1999) e S. Sontag (2003) sobre o realismo e o testemunhal.

Fazendo alusão a uma pesquisa anterior (GOMES; LOBATO, 2016) que abordou a representação do outro na cobertura jornalística da Primavera Árabe, entendemos que “Fuocoammare” é esforço de tradução de uma questão complexa e multifacetada e, em seu modo de comunicar, reforça os entrecruzamentos e diferenciações entre macro e microidentidades (no caso, as do Ocidente, representadas por meio da ilha italiana, e as do Oriente Médio e o Norte da África, na figura dos refugiados). Pode-se, assim, aferir que a obra surge como produto representativo de uma era marcada por conflitos humanitários, tornando legível um outro que nos escapa à compreensão plena e que é material e simbolicamente ameaçado.

Nesse sentido, a obra exercita a mediação em suas dimensões de polissemia, corporalidade, sociabilidade e ética; propõe uma leitura da alteridade baseada na empatia, com clara ancoragem sociopolítica e preocupação nos modos de endereçar a alteridade narrada. Conclui-se, assim, que “Fuocoammare” pode ser entendido como proposta de inter-relação mediada que busca fomentar “um senso do outro suficiente não apenas para a reciprocidade, mas também para gerar um senso de cuidado, obrigação e responsabilidade” (SILVERSTONE, 2002, p.14) com quem se narra.
Bibliografia

BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CATALÀ, J. M. La imagen compleja. Bellaterra: UAB 2005.

FOSTER. H. O retorno do real. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

GOMES, M. R. Comunicação e identificação. Cotia: Ateliê, 2008.

GOMES, M. R. ; LOBATO, J. A Primavera Árabe e o enquadramento do outro: a captação da alteridade na narrativa jornalística. In: JANOTTI JR., J.; JESUS, E.; ROXO, M.; TRINDADE, E. (Orgs.). Reinvenção comunicacional da política. Salvador / Brasília: EDUFBA / Compós, 2016.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Guaracira, 2001.

SILVERSTONE, R. Complicity and collusion in the mediation of everyday life. New Literary History, 2002, v.33., p.761-780.

SOARES, R. L. Realismos audiovisuais. Doc On-line. 2015, p.216-238.

SONTAG, S. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, T. Identidade e diferença. Petrópolis: Vozes, 2000.