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  Título
Uma política de formação possível: estudo de caso do Programa Elipse
Autor
Lia Bahia Cesário
Resumo Expandido
O foco prioritário na dimensão industrial do cinema orienta as políticas públicas e garante investimento em produção e distribuição de filmes e programas de televisão de empresas já estabelecidas no mercado. A ausência de políticas públicas voltadas para a formação e educação audiovisual é um gargalo histórico.

Observando a lacuna da política pública e a potencia do audiovisual, a Secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro (SEC) elaborou um programa voltado para a formação e desenvolvimento de jovens e a produção de curtas universitários. A SEC, em parceria com a Fundação Cesgranrio, lançou em 2015 e 2016 um programa de formação destinado aos jovens universitários do estado do Rio de Janeiro. Uma opção de política pública que foge aos cânones industriais do cinema e busca um novo olhar de política pública e para o espaço audiovisual.

O Elipse tem como objetivo estreitar os laços entre as políticas públicas e a universidade e tem como consequência o fomento à realização de curta universitário. Desta forma os “cabeças de equipe” do curta devem ser universitários, assim como precisam, obrigatoriamente, ter um professor da universidade para supervisionar o projeto e que ficam com responsabilidade de escrever um pequeno texto para constar no catálogo.

Acredito que esta aliança - políticas públicas para o audiovisual e a universidade - possa apontar outras experiências éticas e estéticas, uma vez que a universidade é o espaço e o tempo em que a produção audiovisual pode acontecer de forma livre e arriscada. Onde o fazer e o pensar audiovisual torna-se um dispositivo de resistência aos aprisionamentos do confortável e adequado.

Na primeira edição, recebemos 100 inscrições e na segunda 120 projetos (a segunda edição ainda está em andamento). Para além do fomento de R$ 12.500 para os curtas selecionados, fizemos uma sessão aberta e gratuita de exibição no Cinema Odeon com os 12 contemplados em formato DCP. A sessão no Odeon durou mais de três horas de duração e teve um público de mais de 800 espectadores. Após a sessão houve um evento de premiação, fruto da parceria, que fechamos com o Canal Brasil que fez a aquisição dos três premiados.

O objetivo do Programa Elipse é investir em formação audiovisual, valorizando o espaço universitário como potência de pesquisa e transformação. Por isso, realizar uma exibição pública gratuita em uma sala de cinema, mostrar a possibilidade de aquisição por um canal de televisão, publicar um catálogo são tão importantes quanto o recurso para o fomento. Assim, no Elipse construímos um programa, ao optar por pensar de forma orgânica e circular; e não apenas mais um edital de fomento à produção .

Os filmes produzidos estão circulando em festivais nacionais e internacionais de diferentes perfis. A contribuição destes curtas-metragens vai além do espaço universitário, segue em direção à transformação da poética das imagens e da cultura política do audiovisual brasileiro contemporâneo.

O Programa Elipse não é o único que aponta para novos caminhos, ao colocar a educação e formação como protagonistas dentro do campo das políticas públicas. Estou longe de acreditar que o Programa Elipse dá conta da complexidade da formação e educação audiovisual no estado do Rio de Janeiro. Sei das limitações do Programa. E a principal para mim é de alcance (e quem está fora da universidade?). Fizemos uma opção política naquele momento. Porque fazer política pública é também fazer escolhas a partir de diagnósticos.

Parece fundamental que as ações de políticas públicas para a educação e formação audiovisual não sejam pontuais e isoladas, mas que sejam estruturais nas políticas nacionais, estaduais e municipais. Isso demanda uma revisão histórica sobre o pensar e fazer audiovisual no Brasil que envolve pesquisa, política pública e mercado.
Bibliografia

BAHIA, L. Discursos, Políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. São Paulo: Itaú Cultural : Iluminuras, 2012.

CANCLINI, N.G. América Latina: mercados, audiências e valores num mundo globalizado. Conferência da 4º Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Rio de Janeiro: Multirio, 2004.

CINEOP. Carta CINEOP in http://www.cineop.com.br/

SECRETARIA E ESTADO DE CULTURA. Catálogo Elipse, Rio de Janeiro, 2016.

MIGLIORIN, Cezar. Cinema e escola, sob o risco da democracia in http://www.fe.ufrj.br/artigos/n9/9_posfacio_cinema_e_escola_104_a_110.pdf

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Trad. José Miranda Justo. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.