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  Título
Problemas acerca da cultura hermenêutica na crítica cinematográfica
Autor
Alan Campos Araújo
Resumo Expandido
Esse trabalho parte da hipótese de que a crítica cinematográfica, bem como os estudos de cinema em geral, tendem excessivamente para uma cultura da interpretação ultra subjetiva em seus modos de refletirem obras audiovisuais. Problematizar esse estado dos estudos culturais se torna imprescindível para o trabalho, enxergando o caráter muitas vezes nocivo dessa abordagem como sendo redutora ou precipitada, bem como incapacitada de refletir satisfatoriamente novas estéticas cinematográficas. Ao fim o trabalho utiliza-se de algumas dessas novas estéticas para pensar e apontar novos terrenos para a crítica cinematográfica.

É recorrente que estudiosos se relacionem com o cinema por uma aproximação baseada em culturas hermenêuticas, partindo de interpretações para entender o porquê de certo filme ter feito determinadas escolhas estéticas – de fotografia, roteiro, direção de arte, etc. Consequentemente é comum que a crítica foque em expor suas opiniões desse jogo de sentidos.

Esse trabalho enxerga que esse vício na cultura hermenêutica como fonte quase que exclusiva para a reflexão fílmica é uma dos principais lugares para se pensar o estado da crítica cinematográfica. O que me parece essencial para os estudos contemporâneos de cinema é buscar chaves de pensamento que fujam desse lugar. Primeiro, porque tal cultura da interpretação visa pontos de vista que tendem a ser extremamente subjetivos e inquestionáveis, segundo porque essa mesma cultura muitas vezes olha um filme como um quebra-cabeça a ser decifrado, ou seja, como algo que no momento onde ele é concluído se torna incapaz de lançar novas questões. Por último, gostaria de frisar que o formalismo da cultura hermenêutica tende a retirar o caráter afetivo que a obra possa provocar como uma forma de conhecimento para reflexões críticas.

Indo além, tal cultura se revela datada em pensar as novas sensibilidades cinematográficas que surgiram nos últimos 30 anos. O radicalismo estético de James Benning, cujo os filmes muitas vezes se resumem a um único plano nulo de momentos dramáticos convencionais – isso é, relativos ao cinema que prioriza o jogo de sentidos da montagem-, ou se pensarmos em um filme contemporâneo brasileiro como a Misteriosa Morte de Pérola (Guto Parente, 2014), não estariam nessas obras evocações de estados de espírito de tensão corporal ou imobilidade ao invés de uma ordem narrativa de começo, meio e fim bem rígidos? Esses exemplos representam um terreno fértil não somente para expor a fragilidade da crítica cultural enquanto presa à visão subjetiva de seu autor, como também para desafiar o pesquisador a alçar novas abordagens metodológicas de sua escrita.

Portanto, o trabalho reflete acerca desses filmes, e alguns outros, primeiramente através de suas superfícies, de suas pulsações imagéticas, do contato direto de suas imagens, olhando menos para o que elas podem representar e mais para os afetos que elas provocam. Espera-se assim sugerir novos caminhos que possam iluminar novos horizontes para os estudos cinematográficos.

A principal base para o trabalho é o livro “Produção de Presença: o que o sentido não consegue transmitir” de Hans Gumbrecht (2010), cujo desejo de validar novas formas de se apreender conhecimento por meio de culturas de presença – isto é, culturas que não estejam ligadas no excesso da hermenêutica como maneira de se relacionar com as coisas do mundo –, bem como seu estudo acerca da experiência estética, possui forte conexão com a hipótese apresentada aqui. O trabalho ainda tem como apoio o texto “Contra a Interpretação” de Susan Sontag (2013, p. 17), que defendia que a tarefa do crítico cultural é “cortar o conteúdo para podermos ver a coisa em seu todo” e “O que as imagens realmente querem?” de W. J. T. Mitchell (2005), com esse último indicando uma vontade das imagens em serem consideradas “como individualidades complexas ocupando posições de sujeito e identidades múltiplas”.
Bibliografia

ALLOA, Emmanuel (Org.). Pensar A Imagem. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção De Presença: o que o sentido não consegue transmitir. 1. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2010.

MITCHELL, W. J. T.. “O Que As Imagens Querem?”. 2005. In: ALLOA, Emmanuel (Org.). Pensar A Imagem. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. Cap. 9, p. 165-190.

SONTAG, Susan. Against Interpretation: and other essays. 1st ed. New York: Picador, 2001.