Voltar para a lista
 
  Título
De dentro do espelho: a imagem-cristal em Laura Mulvey e Agnès Varda
Autor
Ana Caroline de Almeida
Resumo Expandido
O artigo faz uma análise sobre como o conceito deleuziano de imagem-cristal potencializa uma leitura feminista de duas sequências cinematográficas realizadas em tempos distintos, por diretoras distintas, mas ambas com um elemento em comum: o uso de espelhos como objeto central de cena. As sequências em questão estão nos filmes "Enigmas da esfinge" (1977), filme experimental de Laura Mulvey, e "As praias de Agnès" (2008), documentário de Agnès Varda, e será a partir delas que será feita uma aproximação entre as aberturas analíticas da imagem-tempo e o debate sobre a condição existencial de ser mulher.



Quando Laura Mulvey e Agnès Varda filmam suas respectivas sequências cinematográficas em um cenário onde elas mesmas se auto referenciam e se refletem, o imaginário do espelho está atravessado nelas, ainda que suas motivações para o uso desse artifício sejam completamente diferentes: enquanto Mulvey quer discutir as fundações psicanalíticas sobre o encarceramento da própria imagem da mulher, e por isso a filma dentro de ambiente fechado e escuro, Varda abre suas imagens para um debate sobre a relação entre cinema, corpo e memória diante do horizonte ilimitado de uma praia.



Na sequência analisada do filme de Laura Mulvey, os espelhos e os reflexos multiplicados das personagens, muito antes de provocarem as interpretações psicanalíticas propostas por Mulvey, nos deslocam para o indiscernível, um espaço que agrega o duplo e atualiza o virtual em uma só superfície. As imagens projetadas nessa sala de espelhos não são reflexos, mas a coisa em si. No último giro da câmera pelo apartamento, uma nova personagem surge: a da própria diretora e sua câmera, agora em uma posição frontal a um desses espelhos. Eis a percepção da percepção, a fisgada da autoconsciência cinematográfica na imagem de uma mulher que expõe seu próprio corpo como testemunho de sua autoria. Temos, assim, um típico regime cristalino do cinema, em que “a descrição vale por seu objeto, o substitui, cria-o, apaga-o a um só tempo (...) Agora é a própria descrição o único objeto decomposto, multiplicado” (DELEUZE: 2005: 155).



No filme de Agnès Varda, a imagem-cristal se põe de três formas: na elaboração metafísica de um cinema que, ao se olhar no espelho, manifesta sua autoconsciência de ser cinema e, com isso, rompe com a premissa narrativa de uma câmera invisível; na inseparável projeção de Agnès Varda simultaneamente como autora agente, personagem reagente e cenário exposto (“se abríssemos pessoas, encontraríamos paisagens, se abrissem a mim encontrariam praias”, ela narra em off), revelando, a partir de seus reflexos, a sua própria multiplicidade e, finalmente, na transformação dessa praia em um espaço onde a diretora irá desterritorializar objetos de afeto e extratos da memória: vemos fotos antigas dispostas sobre a areia e ouvimos a música de Franz Schubert que sua mãe escutava durante a semana como trilha sonora que abafa o vento que vem do mar.



No que diz respeito ao cinema, os estudos deleuzianos sobre a imagem-movimento e, particularmente, sobre a imagem-tempo são uma força potencializadora para sentir a “textura”, como diria a personagem de Maxime em "Enigmas da esfinge", de uma zona de indiscernibilidade das mulheres. O conceito de imagem-cristal, aqui usado para analisar duas sequências cercadas por espelhos, pode muito facilmente render outros debates quando em contato com essa forma repetida da mulher diante do espelho e de cineastas mulheres filmando a si próprias - de Chantal Akerman, que se filma no reflexo do vidro do metrô em "News from home" (1977) a Naomi Kawase, que se filma nas sombras e reflexos de sua casa em "Nascimento e maternidade" (2006), há uma recorrência dessa autoreferência em cineastas feministas -, assim como pode ressignificar toda uma tradição de análise fílmica produzida pela própria teoria feminista.
Bibliografia

BAZIN, André. O que é o cinema?. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

BRADIOTTI, Rosi. Metamorphoses: Towards a Materialist Theory of Becoming. Cambridge: Polity, 2002.

BURCHILL, Louise. Becoming-Woman: a metamorphosis in the present relegating repetition of gendered time to the past, Time and Society, n° 1, 2010.

DELEUZE, Gilles. Cinema 1: a imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

_________. Cinema 2: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 4. São Paulo: Editora 34, 2012.

MULVEY, Laura. Visual pleasure and narrative cinema. In: Film Theory and Criticism: Introductory Readings. New York: Oxford UP, 1999.

RANCIÈRE, Jacques. A fábula cinematográfica. Campinas: Papirus, 2013.

SUTTON, Damian. Photography, cinema, memory: the crystal image of time. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2009.