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  Título
O Encarar a câmera e os afetos partilhados
Autor
Mariana Baltar
Resumo Expandido
A proposta desta comunicação é pensar o gesto de encarar e interagir com a câmera no interior das obras marcadas prioritariamente no campo da ficção como um instante que estabelece uma relação de cumplicidade e afeto com o espectador. Tais passagens acontecem sobretudo nas inserções de performances musicais em filmes que não necessariamente dialogam com o gênero. Nesse sentido, tais performances oferecem ao espectador uma suspensão do regime narrativo (pelas formas como são insertadas no tecido fílmico e pela duração de suas performances) e com isso, argumento, recuperam o regime de atrações no cinema e audiovisual contemporâneo. Nossa hipótese é que tal gesto - instante quase supérfluo e fragmentário no interior do tecido fílmico - acaba por instaurar uma outra ordem de engajamentos com o espectador, mobilizando relações de cumplicidade, "partilhamentos" e afetações.

É possível perceber tais passagens em obras como Boi Neon (Gabriel Mascaro, 2015), Mate-me por favor (Anita Rocha da Silveira, 2015), Amor, plástico e barulho (Renata Pinheiro, 2015), Batguano (Taviho Teixeira, 2014), Doce Amianto (Guto Parente e Uiros Reis, 2013).

Nossa hipótese é que nesta atualização do regime de atrações, o gesto (dos corpos em sua interação e da câmera) acaba por operar um efeito afetivo que promove uma força disruptiva no tecido narrativo. Nesse sentido, os gestos e as performances constroem um modo de expressar os corpos na tela que mobilizam, a partir de afetos e engajamentos sensório-sentimentais. Com isso, acreditamos contribuir para uma reflexão sobre as tensões entre a dimensão narrativa (entendida como storytelling - a capacidade do cinema e audiovisual de contar e estruturar estórias) e a dimensão performativa e de atrações no campo do audiovisual. Para sustentar a hipótese, a pesquisa recupera o conceito de atrações, formulado por Tom Gunning e André Gaudreault, refletindo sobre suas permanências e atualizações.

Entendemos que Atrações e Narrativa são sim regimes distintos (e não meramente opostos), que podem conviver, e efetivamente o fazem, num mesmo tecido fílmico. Assim, deve-se pensar nesta "convivência" como relações dinâmicas de equilíbrio instável entre dois regimes estéticos.

O Cinema de atrações se baseia na qualidade de mostrar mais do que na faculdade da narração (a dimensão narrativa entendida como storytelling). Tal dimensão do mostrar acaba por reconhecer e instaurar a figura do espectador, o que é algo que se estabelece pelo comportamento explicitamente demarcado do aparato cinematográfico - especialmente a coreografia da câmera na relação com os corpos na tela, a singularização da performance das ações e gestos desses corpos voltadas para o olhar da câmera (e correlatamente para o nosso olhar).

O gesto de encarar a câmera é usualmente associado ao campo do documental - e nas convenções do cinema clássico narrativo ele é mesmo evitado por traria uma dimensão reflexiva além de evocar aspectos da "vida de improviso" (para usar a formulação de Vertov). No cinema moderno, é justamente a qualidade antiilusionista que interessou, fazendo com que o gesto de encarar a câmera fosse elemento presente em filmes da nouvelle vague francesa, para citar um exemplo mais canônico.

Minha questão ao pensar essas passagens no cinema ficcional brasileiro contemporâneo é perceber como elas se apresentam como instantes que irrompem no fluxo do tecido fílmico e estabelecem uma partilha e cumplicidade com o espectador. Assim, tais passagens ao mesmo tempo recuperam os usos autorreflexivos do cinema moderno e estabelecem novas dinâmicas de afeto.

O entendimento do afeto é tributário de duas leituras do termo: a realizada por Elena Del Rio (2008) e Susanna Paasonen (2011), que vêem afeto como algo que se tece no âmbito do fílmico em direção à mobilização das sensações do espectador. Tal movimento se dá como uma expressão que se ampara no corpo e para o corpo, mas que se sustenta na performance.
Bibliografia

BALTAR, Mariana. Atrações e prazeres visuais em um pornô feminino. In. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, Brasil, v. 42, n. 43, p. 129-145, ago. 2015.

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