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  Título
Cinema brasileiro: o uso da sociologia para se pensar o hegemônico
Autor
Vanessa Kalindra Labre de Oliveira
Resumo Expandido
Esse trabalho é fruto da minha tese de doutorado, em realização no PPGCOM-UFRGS, onde um referencial teórico interdisciplinar é usado para analisar a trajetória artística de Daniel Filho no cinema comercial brasileiro na contemporaneidade. Para tal, os estudos advindos da sociologia são ferramentas eficientes para analisar o cinema como uma realização não apenas artística e econômica, mas simbólica, por meio dos conceitos de campo, fator de moldagem e hegemonia.

Para Bourdieu (2009, p.31), o campo é um espaço social de relações de onde todo objeto retira suas propriedades: “o limite de um campo é o limite dos seus efeitos ou, em outro sentido, um agente ou uma instituição faz parte de um campo na medida em que nele sofre efeitos ou que nele os produz”. Assim, movido constantemente pelas tensões próprias das relações, o campo reproduz suas hierarquias e leis de conservação, associando-se ao princípio dialógico e relacional (BOURDIEU, 1989).

Pensando no campo do cinema, entende-se que os modelos cinematográficos da contemporaneidade são resultados das relações entre seus agentes e instituições. Formado por vários eixos (SILVA, 2009), esse campo tem passado por grandes transformações desde final da década de 1990, com o deslocamento de um modelo de produção e de representação da TV para o cinema, criando um ciclo de produções híbridas alimentado por profissionais com experiência em ambos os meios.

Como idealizador da Globo Filmes e dono da Lereby Produções, esse modelo deve muito à atuação de Daniel Filho no mercado. Participando de muitas das maiores bilheterias do recente cinema brasileiro, suas estratégias de produção estão presentes em filmes como O auto da compadecida (Guel Arraes, 2000), Dois Filhos de Francisco (Breno Silveira, 2005), Se eu fosse você 2 (Daniel Filho, 2009), Até que a morte nos separe 2 (Roberto Santucci, 2013), entre outros. Respeitando as especificidades de cada filme, o modelo de cinema de Daniel Filho tende a apresentar um ritmo mais acelerado, narrativas lineares e de pouca ambiguidade, planos fechados e conflitos da classe média apresentados para o grande público com fotografias limpas, estrutura de gênero tradicional e grande orçamento publicitário.

Em função do alcance de público superior aos padrões do cinema nacional (SILVA, 2011), sua produção passou a ser um diferencial no campo, tornando estas características fatores de moldagem para o mercado. Entende-se por fatores de moldagem as estratégias utilizadas por um determinado agente ou campo que se tornam não apenas referências para os demais, isto é, um sistema de parâmetro que define um entendimento coletivo sobre algo, mas definidoras de um dado modelo de produção hegemônico, operando como força opressiva ao exigir daqueles que querem competir no mercado que se ajustem aos seus comportamentos e regras (BOURDIEU, 2009).

Contando com o apoio do setor de exibição, que privilegia a entrada desses filmes no mercado, instaura-se uma hegemonia estético-produtiva no cinema contemporâneo brasileiro, ao menos em relação ao alcance de bilheteria. Como aponta Moraes (2010, p.54), “no entender de Gramsci, a hegemonia pressupõe a conquista do consenso e da liderança cultural e político-ideológica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras”. Sendo fruto de um processo histórico, ela transforma mentalidades, valores e pontos de vista, de modo a fomentar apoios e conformidades na sociedade em que se insere (MORAES, 2010). Assim, a hegemonia se faz e se desfaz no processo de apropriação do sentido pelo poder, da sedução e cumplicidade que permite a reprodução do sistema e a identificação do cultural como campo estratégico articulador de conflitos (MARTIN-BARBERO, 2006).

Com isso, a partir de fatores de moldagem que construíram uma hegemonia cultural, criou-se um campo com poderosas articulações artísticas e econômicas, transformando a cara do cinema comercial contemporâneo no país nas duas últimas décadas.
Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2009.

________________. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1989.

MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.

MORAES, Dênis de. Comunicação, Hegemonia e Contra-Hegemonia: a contribuição teórica de Gramsci. REVISTA DEBATES, Porto Alegre, v.4, n.1, p. 54-77, jan.-jun. 2010.

SILVA, João Guilherme Barone Silva e. Assimetrias, dilemas e axiomas do cinema brasileiro nos anos 2000. Porto Alegre: Revista Famecos, vol. 18, nº3, 2011.

_________________________________. Comunicação e indústria audiovisual: cenários tecnológicos e institucionais do cinema brasileiro na década de 90. Porto Alegre: Sulina, 2009.