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  Título
O zumbido das abelhas: contágio social e ética em “Odiados na nação”
Autor
Ericson Telles Saint Clair
Resumo Expandido
O último episódio da terceira temporada da série “Black Mirror” - denominado “Hated in the Nation” (Odiados na nação) – abre-nos a possibilidade para a abordagem das relações entre ética, contágio social e tecnologias digitais de comunicação. A produção britânica faz uso de cores fortes para pintar um quadro distópico que nos resulta estranhamente familiar. No episódio, uma sequência de mortes de difícil explicação é atrelada a um jogo viral das redes sociais supostamente inofensivo que, por meio da hashtag #DeathTo, elege pessoas que mereceriam ser mortas em razão de atitudes entendidas como condenáveis pelos usuários. Uma equipe de investigação policial descobre a relação das mortes reais com a ação de um hacker ativista que invadiu um projeto financiado pelo governo (Granular Project) que tinha como propósito inicial espalhar abelhas-drones (ADI – Autonomous Drone Insects) para polinização das flores do país, dado que as abelhas “naturais” haviam sido extintas. Ao atrelar os resultados do jogo #DeathTo aos sensores de localização das abelhas-drones, o ativista criou um mórbido dispositivo automático de assassinatos cuja autoria é remetida não a uma única pessoa, mas à coletividade da rede. O criativo episódio permite-nos refletir, neste trabalho, a respeito das novas modalidades de exercício de poder que têm nas redes sociais da internet um importante catalisador. Se, em seus primeiros anos, as redes virtuais foram exaltadas como propiciadoras de novos arranjos políticos para além da representação política tradicional, atualmente o outro lado do espelho evidencia diversos exemplos da constituição, nesses dispositivos, de uma nova composição de forças que atualiza os poderes coercitivos da moral de rebanho denunciada por Nietzsche. Em “Odiados na nação”, as ovelhas da moral reorganizam-se em redes digitais e adquirem a figura das abelhas-drones, que no episódio figura como um novo capítulo da história da vigilância vinculada às tecnologias. Embora bastante em voga atualmente, a temática do viral e do contágio social não foi inaugurada pelas redes sociais da internet. Como indicou o gesto inovador do sociólogo Gabriel Tarde na virada do século XIX para o século XX, a sugestibilidade contagiosa de crenças e desejos, entendida por Tarde por imitação, é a própria força motriz de produção dos grupos sociais (assim como dos mundos físico-químico e biológico). Partindo do pressuposto de que a diferença é o alfa e o ômega do universo, Tarde vê a imitação como uma força que produz homogeneidades sempre instáveis em um caldo sempre móvel de diferenças, elas mesmas impermanentes. Mesmo precárias e instáveis em si mesmas, tais homogeneidades (como uma tendência de opinião pública, por exemplo) frequentemente aparentam ter grande solidez por conta das repetições que reatualizam o gesto imitativo, provocando ainda mais adesões a ele. Tarde equivaleu a vida social ao estado sonambúlico, curiosamente refletido nos zumbidos das abelhas-drone e na música hipnotizadora presentes no episódio em questão. Também importante jurista de sua época, o pensador argutamente percebeu as dificuldades em se atribuir responsabilidade a crimes cometidos por multidões, intuição nascida da observação da ascensão das coletividades de massa do ambiente citadino. Nas sociedades capitalistas de hoje, a frequente confusão entre crítica e manifestação de ódio pelas redes virtuais parece fazer do linchamento prática recorrente da moral das ovelhas/abelhas contemporâneas. A banalização do linchamento por contágio viral opera em intencionalidade não-subjetiva, como descrita pela perspectiva foucaultiana de poder, caracterizada por um conjunto de relações de forças imanentes ao domínio em que são exercidas. A intencionalidade não-subjetiva do poder reforçada pela força de contágio das redes atualiza o rebanho nietzschiano como um mórbido - e cada vez mais familiar - enxame de abelhas contagiadas por seu próprio zumbido hipnotizador.
Bibliografia

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