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  Título
Conceitos estéticos e crítica de cinema na recepção de Aquarius
Autor
Rodrigo Cássio Oliveira
Resumo Expandido
De que modo o conhecimento estético de um filme está implicado no discurso da crítica de cinema? Indo mais longe, podemos perguntar: O que significa conhecer esteticamente um filme, o que diferencia esse conhecimento de outras formas de conhecimento e o que são, propriamente, os conceitos estéticos que o tornam viável?



A filosofia analítica contemporânea tem uma penetração muito tímida na pesquisa brasileira em cinema. Apesar disso, as questões que expusemos acima, de real importância para pensar a atividade da crítica, recebem um tratamento muito profícuo na obra de estetas analíticos, mesmo quando estes autores não tratam diretamente do cinema, como é o caso do filósofo britânico Frank Sibley.



Com a intenção de contribuir para uma maior presença da estética analítica nos estudos de cinema brasileiro, propomos neste trabalho uma análise da recepção crítica do filme Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, tomando como referência a teoria de Sibley sobre conceitos estéticos. O que permite a alguém dizer que uma obra é bela, agradável, tocante, sentimental etc.? À diferença dos conceitos não estéticos, os conceitos estéticos não possuem condições regulativas que determinam a sua aplicação adequada. Isso significa dizer – como também disse Clement Greenberg (2002) – que a crítica não pode fundamentar seus juízos em características necessárias e suficientes. O julgamento crítico é algo basicamente distinto de um ato descritivo: “Nenhuma descrição, por mais completa que seja, mesmo com os termos mais comuns sobre a graciosidade, eliminaria todas as dúvidas de que algo é gracioso, assim como uma descrição pode eliminar as dúvidas de que uma pessoa é preguiçosa ou inteligente” (SIBLEY, 2001, p. 7).



O que faz a crítica se o seu papel não é demonstrar – pelo menos não com as evidências irrevogáveis de uma proposição descritiva – que determinado filme é bom ou ruim? Como a crítica pode advogar a favor de que um filme seja bom/ruim, ou melhor/pior que outro filme? Há uma tendência, bastante forte no presente, a responder tais perguntas com uma abdicação do julgamento. Assim, não caberia, aos críticos, emitir juízos sobre a qualidade estética de uma obra; a não demonstrabilidade descritiva de tais juízos bastaria para decretar que eles são relativos ao gosto de cada um, e que simplesmente não fazem falta.



Muito embora essa vulgarização tenha conquistado muitos adeptos, o gosto é um conceito demasiado importante na história da estética para ser tratado com tão pouco rigor. Como atestado por Sibley, a problematização dos conceitos estéticos serve para que compreendamos a forma específica dos juízos de gosto, e assim também a forma dos nossos próprios julgamentos, no exercício natural e inevitável da construção do gosto. Nossos objetos de estudo são os textos sobre Aquarius publicados por Eduardo Escorel na Revista Piauí, José Geraldo Couto no Blog do Instituto Moreira Salles, Andreia Ormond na revista Cinética, e Guilherme Savioli na revista Interlúdio. A análise de conteúdo deste material será confrontada com a teoria dos conceitos estéticos, a fim de verificar por qual modo, e até que ponto, os textos analisados articulam um conhecimento estético do filme que criticam.



Uma vez que a recepção de Aquarius foi especialmente marcada por polêmicas ideológicas, indagaremos se a demanda por posicionamento político representou algum tipo de empecilho, enfraquecendo ou descartando os juízos estéticos nos textos estudados, o que deixaria em relevo a hipótese de que a tensão entre as apreciações políticas e estéticas de um filme tende a eliminar a discussão do gosto (no sentido de Sibley), conduzindo ao equívoco de se julgar o valor artístico de um filme não por suas qualidades estéticas, mas sim pelo valor ideológico que ele teria.
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