Voltar para a lista
 
  Título
Distopia em tons pastéis: afetos e resistências em Black Mirror.
Autor
Diego Paleólogo
Resumo Expandido
A ideia/conceito de distopia, em oposição ao imaginário político-estético das utopias (nos moldes do início do século XX), adquire novas espessuras. No início do século XXI proliferam narrativas que fabricam cenários nos quais vigilância, controle e disciplina, mediadas por tecnologias ubíquas, tornam-se os eixos ao redor dos quais corpos, subjetividades e modos de existências orbitam. Se a ideia de interioridade e a dicotomia público/privado amanhecem, a cada dia, mais corroídas e frágeis, cabe dizer que experimentamos novas e outras modulações das antigas dualidades que marcaram os jogos de oposições da modernidade. Se antes fomos capazes de imaginar futuros mais reluzentes, observamos hoje produções que flertam com as possibilidades, cada vez mais reais, de futuros mais sombrios.

Black Mirror, a ficção seriada de origem britânica que ganhou visibilidade em 2016 (ano regido por uma sensação e discursos de fim-de-mundos – ou, como aponta Achilles Mbembe, “o fim da era do humanismo”), parece estar em fina sintonia com as questões suscitadas pela ubiquidade tecnológica, distopias e as novas configurações dos corpos e das subjetividades. Na ficção seriada (espécie de sombria ficção científica especulativa), as possibilidades abertas por novas tecnologias tecem tramas que narram desde a ideia de tecnologia como arma política até a possibilidade de softwares que simulam mortos. Não raramente, as tramas operam nos interstícios da agência corpo-máquina, público-privado, Bem-Mal – não mais como esferas fixas em polos opostos e sim como narrativas amalgamadas, fundidas. Diversos episódios são ambientados em um não-tão-distante futuro distópico (futuro esse que parece herdeiro de 1984, de George Orwell), marcado por contenções emocionais, solidão, incapacidade de comunicação e tons pastéis – por debaixo do suave ruminar elétrico e da passividade convocada por essas cores, o humano, a carne, o orgânico pulsam...

Alguns episódios funcionam como campos operacionais para pensarmos essas novas/outras relações: ‘Be Right Back’, ‘Nosedive’ e ‘San Junipero’. Nessas narrativas, as personagens utilizam a tecnologia como formas de mediar/remediar afetos, situações contingentes e irreparáveis: morte, perda, doenças terminais... A tecnologia aparece, então, como uma espécie de ambígua salvação, uma presença (quase) inevitável que corrompe e desestabiliza as construções e fabricações simbólicas dos últimos duzentos anos – marcando o início desse recorte em 1817, com a publicação de Frankenstein, de Mary Shelley. Cabe anotar que ‘Be Right Back’, o primeiro episódio da segunda temporada, pode ser entendido como uma reinterpretação contemporânea desse romance – que inaugura a ideia do ciborgue no imaginário ocidental.

Sob muitos aspectos, a série de tecno-horror apresenta as novas possibilidades tecnológicas como potências monstruosas que desterritorializam os corpos, os afetos e as subjetividades, produzindo hibridações complexas e personagens que, em algum momento, devem realizar radical resgate de afetos perdidos, esquecidos e tornados obsoletos em um mundo assombrado por implantes, próteses, mundos virtuais, realidades expandidas...

A partir da apreensão foucaultiana de heterotopia e das recentes discussões acerca da ideia de fim-de-mundo, é objetivo desse trabalho articular a ideia de uma distopia em tons pastéis, na qual a ubiquidade tecnológica torna-se a superfície ‘reflexiva’ – o espelho negro – sob e sobre a qual os desejos, pulsões, impulsos, ansiedades, angústias, medos e subjetividades se desenrolam. Nossa ideia ou até mesmo desejo de apocalipse – um evento no qual nossa espécie seria dramática e radicalmente aniquilada – parece ter sido capturada por um ethos e pathos tecnológico. A solidão, em suas tintas mais profundas, aparece como um resistente campo, simultaneamente fabricado e (re)mediado pela ubiquidade tecnológica. Permanece a questão: diante do fim dos tempos, quais afetos e subjetividades tornam-se resistência?
Bibliografia

DANOWSKI, D. VIVEIROS DE CASTRO, E. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2014.

DELEUZE, GILLES. Crítica e Clínica. São Paulo: Editora 34, 2011.

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico, as heterotopias. São Paulo: N-1 Edições, 2013.

FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos. Estética: literatura e pintura, música e cinema. MOTTA, Manoel Barros da (Org.). Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. v. 3.

MBEMBE, Achilles. ‘A era do humanismo está terminando’. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/564255-achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando