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  Título
Jabor filma Nelson: tensões entre tragicomédia e pornochanchada
Autor
Juliano Rodrigues Pimentel
Coautor
Guilherme Fumeo Almeida
Resumo Expandido
O Cinema Brasileiro, pelos olhos de Paulo Emílio, em, A trajetória do subdesenvolvimento (1996), se apresenta desinteressado pelo próprio passado, algo que se caracteriza desde as dificuldades de se criar e manter uma cinemateca até conceituar e problematizar as particularidades da sua própria historiografia. Ismail Xavier, Alex Viany, Glauber, Bernardet, e tantos outros, resgataram, criaram, e legitimaram um conjunto de olhares que contam a história do nosso cinema, e entre esta percepção do passado de Paulo Emílio e as vozes plurais e críticas dos outros autores, percebemos uma lacuna teórica demarcada pelo fato de o discurso histórico do cinema brasileiro se misturar diretamente com a crítica cinematográfica de jornais e revistas. Um dos exemplos disto, tratado neste estudo, é o de dois filmes dirigidos por Arnaldo Jabor e que, esteticamente e historiograficamente, possibilitam um debate sobre os entendimentos de Pornochanchada e Tragicomédia, ambas designações utilizadas na década de 70, mas sem uma maior acuidade e pormenorização dentro do discurso histórico.

Assim, buscamos responder o seguinte questionamento: como as contextualizações críticas e historiográficas dos filmes Toda Nudez Será Castigada (1972) e O Casamento (1974), tencionam as diferenças entre tragicomédia e pornochanchada? Para responder a esta pergunta, faremos análises fílmicas e historiográficas dos dois filmes, amparadas por noções e conceitos ligados à diferença dentro do discurso histórico e seus reflexos estético-fílmicos.

A problematização sobre os dois filmes de Jabor enquanto tragicomédias parte da classificação de Ismail Xavier (2003, p. 184 e 185), segundo quem o cineasta direcionou as adaptações cinematográficas da obra de Nelson Rodrigues para um tom moderno e melodramático, dando destaque para “o ressentimento de pais e filhos, maridos e mulheres, sem se contaminar pela estreiteza de suas visões, abrindo um horizonte político de observação”. Dessa maneira, se abriu espaço para a inovação do tratamento de Toda Nudez das relações entre família, sociedade, sexo e política através das desventuras de Herculano na união com Geni, e para a radicalização de O Casamento em sua proposta de “incorporação dos excessos, atingindo um grotesco inusitado na estilização do melodrama do pai” (XAVIER, 2003, p. 185). Por meio de uma abordagem que une profundidade dramática, melodrama e experimentações estéticas em torno de uma exploração do grotesco, os dois filmes se consolidaram com suas próprias marcas, que serão exploradas dentro de suas especificidades e enquanto diferentes das produções identificadas com o gênero cinematográfico nacional que se consolidou especialmente durante a década de 1970 em termos de diálogo com um grande público, a pornochanchada.

Ao ressignificar cinematograficamente elementos presentes em diversas formas de entretenimento popular, como o teatro de revista, o circo e o rádio, além de atualizar a dinâmica humorística urbana das chanchadas dos anos 1940 e 50, a pornochanchada se firmou enquanto um gênero que explorava um humor marcado pela ambiguidade, pelo duplo sentido, pelo erotismo e pela crítica de costumes comportamentais, segundo Nuno César Pereira de Abreu (2002). O gênero também pode ser visto como uma representação da liberação de costumes nacionais no período, especialmente em termos sexuais, aponta Inimá Simões (2007), mas sendo essa liberação operada em uma sociedade conservadora e regida por uma ditadura militar, e portanto representada através de marcas como a erotização. Esta proposta é um braço comum de outras duas investigações, a primeira, uma pesquisa de doutorado que analisa a representação das relações interpessoais sociais nas pornochanchadas brasileiras das décadas de 70 e 80, e a segunda, também de doutorado, faz uma revisão crítica das marcas de estilo do Cinema Novo. Ambas são desenvolvidas pelos autores no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul(PPGCOM-UFRGS)
Bibliografia

ABREU, Nuno César Pereira de. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Orientador: Fernão Vitor Pessoa Ramos. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes, Campinas, BR-SP, 2002.

BERNARDET, Jean Claude. Cinema Brasileiro: propostas para uma história. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009.

GOMES, Paulo Emilio S. A trajetória do subdesenvolvimento. São Paulo, SP: Paz e Terra, 1996.

RAMOS, Fernão (Org.). História do cinema brasileiro. São Paulo, SP: Círculo do livro S.A., 1987.

ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo, SP: Cosac & Naify, 2003.

SIMÕES, Inimá. Sexo à brasileira. Revista ALCEU - v.8, n.15, jul./dez. 2007.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena – Melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2001.